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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Eu vi além do que todos viram...

eu vi tudo.

a menina parada na frente do caixão, sem piscar.

o vestido simples, o cabelo preso de qualquer jeito, o olhar fixo na mãe.

o silêncio dela era o grito mais alto da sala.

 

ninguém conseguia se aproximar.

uns diziam que era melhor tirar, outros diziam pra deixar.

eu só olhava…

porque tem coisa que a gente não interfere.

tem dor que é sagrada.

 

quarenta anos de amizade e agora eu ali, parada, olhando o corpo dela imóvel.

tão viva ontem, tão ausente agora.

as mãos cruzadas, o rosto calmo… e a filha em pé, como se guardasse o último suspiro.

 

ela não chorava.

ficava ali, horas, de pé, sem comer, sem sentar.

só pediu uma cadeira pra alcançar a mãe.

ninguém teve coragem de negar.

 

a casa cheia, o barulho das conversas baixas, o cheiro das flores cansadas.

e ela, firme, feita de coragem e amor.

 

quando a noite caiu, o corpo já devia ter ido pro cemitério.

mas ela ainda ali, sem largar.

ninguém percebeu o momento exato em que subiu na cadeira.

devagar, com um cuidado que só o amor entende.

se apoiou, se deitou.

 

e então, aquele abraço.

a menina dentro do caixão, o corpo da mãe frio, o mundo inteiro em pausa.

 

eu quis correr, gritar, tirar, mas não consegui.

fiquei presa no chão, com o coração desfeito.

 

a mão dela, a da minha amiga, estava sobre as costas da filha.

natural, leve, como se ainda protegesse.

ninguém me convence do contrário.

eu vi.

 

e naquele instante, o tempo parou.

não sei explicar o que foi aquilo.

só sei que o amor não acabou ali.

ficou no abraço.

ficou na menina.

ficou em mim.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/10/2025
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