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Eu vi além do que todos viram...eu vi tudo. a menina parada na frente do caixão, sem piscar. o vestido simples, o cabelo preso de qualquer jeito, o olhar fixo na mãe. o silêncio dela era o grito mais alto da sala.
ninguém conseguia se aproximar. uns diziam que era melhor tirar, outros diziam pra deixar. eu só olhava… porque tem coisa que a gente não interfere. tem dor que é sagrada.
quarenta anos de amizade e agora eu ali, parada, olhando o corpo dela imóvel. tão viva ontem, tão ausente agora. as mãos cruzadas, o rosto calmo… e a filha em pé, como se guardasse o último suspiro.
ela não chorava. ficava ali, horas, de pé, sem comer, sem sentar. só pediu uma cadeira pra alcançar a mãe. ninguém teve coragem de negar.
a casa cheia, o barulho das conversas baixas, o cheiro das flores cansadas. e ela, firme, feita de coragem e amor.
quando a noite caiu, o corpo já devia ter ido pro cemitério. mas ela ainda ali, sem largar. ninguém percebeu o momento exato em que subiu na cadeira. devagar, com um cuidado que só o amor entende. se apoiou, se deitou.
e então, aquele abraço. a menina dentro do caixão, o corpo da mãe frio, o mundo inteiro em pausa.
eu quis correr, gritar, tirar, mas não consegui. fiquei presa no chão, com o coração desfeito.
a mão dela, a da minha amiga, estava sobre as costas da filha. natural, leve, como se ainda protegesse. ninguém me convence do contrário. eu vi.
e naquele instante, o tempo parou. não sei explicar o que foi aquilo. só sei que o amor não acabou ali. ficou no abraço. ficou na menina. ficou em mim. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 26/10/2025
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