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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O luto não avisa...

 

a casa tava quieta.

marido no trabalho, crianças na escola.

só ela, o café, o som leve da chaleira e uma vontade pequena de sair, de viver o dia como todos os outros.

fez tudo como sempre, o bom dia no grupo, o espelho, a frase pronta: bora lá com força e fé.

mas a fé às vezes se distrai.

 

o corpo pediu pausa.

sentou no sofá, respirou fundo, e foi ali, no meio do nada, que a vida chegou e sentou ao lado dela.

a vida não tem rosto, mas fala com jeito.

perguntou se ela ainda sentia prazer em existir.

ela respondeu que sim que gostava das manhãs, do cheiro de café, do toque morno do sol pela janela.

 

a vida sorriu.

e disse baixinho que tinha sido bonito até ali, que tava tudo certo, que não precisava ter medo.

foi então que a morte entrou, discreta, sem roubar espaço.

se cumprimentaram.

vida e morte, duas velhas conhecidas.

a morte não pediu licença, mas também não fez barulho.

se aproximou, beijou os lábios dela e a levou leve, como quem entrega uma flor de volta à terra.

 

ficou o cheiro de café, o copo pela metade, a toalha no encosto da cadeira.

ficou o dia, inteiro, ainda tentando entender.

ficou a vida, sentada no sofá, olhando o vazio e dizendo: - eu não acabei, eu só mudei de lugar.

 

E eu, amiga…

ainda tento entender esse silêncio.

 

às vezes acho que tu só dormiu.

ou que vai aparecer de novo com aquele sorriso que sempre resolvia o mundo.

mas não.

tu foi mesmo.

e o que ficou foi a tua leveza, espalhada por aqui.

a casa ainda te chama, o sol ainda perdido, ora frio ora quente, e eu continuo falando contigo... Incrédula, como se a vida ainda te tivesse por perto.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/10/2025
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