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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O espelho que cabe na palma da mão

(entre a mente que avança e a emoção que resiste)

 

 

Percebo uma incoerência entre o avanço tecnológico e a mentalidade emocional ainda presa ao século passado... e é justamente aí que mora a contradição contemporânea. O mesmo dispositivo que aprisiona, liberta. A mesma tela que aliena, conecta. A questão nunca foi a ferramenta... é a maturidade de quem a usa.

 

A neurociência já provou que o cérebro humano é plástico capaz de se adaptar, reaprender e criar novos caminhos diante do novo. A tecnologia, então, não nos rouba humanidade: ela a expande. O problema surge quando o instrumento substitui o propósito. Quando o “scroll” vira anestesia... e a distração, fuga de si. Mas não é só sobre mente, é sobre ritmo.


O mercado de trabalho exige respostas em tempo real, projetos que nascem e morrem em um clique. Orçamentos, reuniões, entregas, tudo é “pra ontem”. Faculdades enviam mensagens oferecendo bolsas, escolas anunciam descontos personalizados, e a fome virou notificação: “seu pedido chegará em 12 minutos”.

 

Vivemos os Tempos Modernos de Chaplin em versão digital, e os “Jekson” já haviam nos avisado.
O encaixe agora é de silício e conexão. E ainda há quem se espante com o relacionamento virtual, como se o amor tivesse prazo de validade analógico. Sim, há casamentos que nascem em aplicativos, e sim, podem dar certo... assim como tantos presenciais também não dão.


O afeto continua sendo humano, mesmo quando atravessa a fibra óptica. Talvez o incômodo não esteja na exposição do outro, mas no espelho que ela se torna. A liberdade não está em desligar o celular... mas em não ser controlado por ele. E, pra mim, o digital não é ausência de alma é a nova forma de expressão de quem se permite estar no tempo em que vive. Como disse Leandro Karnal, o humano tem uma biblioteca nas mãos. O problema é que poucos sabem o que fazer com ela... Alguns leem, outros se exibem... e tudo bem. O que incomoda, no fim, não é o que o outro mostra, é o reflexo de quem ainda não aprendeu a se olhar.

 

Referências:

  • Doidge, Norman. The Brain That Changes Itself. (2007)

  • Frankl, Viktor E. Em Busca de Sentido. (1946)

  • Freud, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. (1905)

  • Lacan, Jacques. O Seminário, Livro XI: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. (1964)

  • May, Rollo. O Homem à Procura de Si Mesmo. (1953)

  • Organização Mundial da Saúde. Relatório sobre Saúde Mental e Tecnologias Digitais. (2023)

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 20/10/2025
Alterado em 20/10/2025
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