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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O caçador de marajás QUE VIROU caçador de "Si Mesmo"

 

Há histórias que o Brasil esquece... ou finge não lembrar. E há outras que continuam latejando sob a pele da memória, o caso Collor é uma dessas.

 

Fernando nasceu no berço do poder. Filho de Arnon de Mello, senador e dono de jornais, e de Leda, mulher de pulso e influência, cresceu cercado de privilégios e expectativas. Herdou o nome, a oratória e o destino, mas talvez nunca tenha herdado o amor simples, aquele que acolhe sem cálculo. Seu avô, Lindolfo Collor, fora ministro de Vargas; seu pai, Arnon, marcou a história do Congresso Nacional com um tiro que atravessou o plenário, um disparo motivado por disputa política, mas que acabou ceifando a vida do senador José Kairala, atingido por engano. Uma tragédia que misturou honra, poder e sangue, e que parece ter atravessado gerações como um presságio silencioso.

 

Na casa grande de Maceió, o menino Fernando via o pai como um mito, e a mãe como o poder por trás da cortina.Mas foi o irmão, Pedro, o contraponto aquele que olhava o império familiar com indiferença, que via nas alianças políticas um jogo de vaidades. Pedro queria o direito de ser apenas homem, não herdeiro.

 

Fernando, ao contrário, parecia movido pelo destino que o esperava. Quando o Brasil ainda se curava da ditadura, ele surgiu na TV com o olhar confiante, o terno impecável e o discurso pronto. “Caçador de Marajás.” Um título midiático, quase messiânico. 

 

Ninguém acreditava de verdade que um político alagoano, de um partido sem expressão, pudesse chegar ao Planalto. Mas chegou. Com o marketing mais moderno do país, com a imagem moldada como um produto de consumo e com o rosto estampado em cada esperança de mudança.

 

Escolheu morar na Casa da Dinda, mansão de muros altos e piscinas azuis, símbolo de um luxo que logo o condenaria. O povo o chamava de “caçador de privilégios”, mas ali, entre mármores e palmeiras, o poder começava a devorar o homem.

 

No início, parecia querer um Brasil moderno. Falava de meio ambiente, defendia os povos indígenas, sancionou o Estatuto da Criança e do Adolescente, o SUS, e assinou a homologação de dezenas de terras indígenas. Foi à Rio-92 e discursou ao mundo sobre preservação e futuro sustentável... Mas, dentro de casa, o passado o perseguia os velhos fantasmas da política brasileira: clientelismo, vaidade, herança e traição.

 

Pedro, o irmão calado, rompeu o silêncio. Denunciou o que sabia, o que via e o que já não suportava. Denunciou o irmão, denunciou o sistema, denunciou a própria família. E assim, o império Collor implodiu de dentro para fora. O país assistiu perplexo.

 

O herói da juventude se tornava vilão das manchetes. A multidão nas ruas pintava o rosto de verde e amarelo. O Congresso repetia o destino dos pais: briga de poder, discursos inflamados, egos feridos. Mas dessa vez o tiro foi simbólico, o impeachment.

 

Pedro morreu dois anos depois, de câncer no cérebro. Leda, a mãe, se foi pouco depois, levando consigo o peso de dois filhos divididos por ambição e destino.

 

E Fernando... sobreviveu a tudo. Renunciou, foi cassado, voltou à política e segue até hoje, como se carregasse no olhar a certeza de que o Brasil perdoa rápido demais. Talvez o erro de Collor não tenha sido apenas político.  Talvez tenha sido humano: acreditar que podia caçar o que havia de podre no outro sem perceber que o verdadeiro inimigo morava dentro de si.

 

O caçador de marajás... virou o caçador de si mesmo.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 19/10/2025
Alterado em 19/10/2025
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