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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos

Londres perdeu o subsolo. E o Brasil, o futuro.

 

Durante décadas, Londres foi o coração que bombeava o sangue da mineração mundial. Naquele epicentro de risco e ambição, projetos nasciam de mapas e perfurações, e o subsolo era tratado como fonte de poder e soberania. BHP, Rio Tinto, Anglo American, Glencore... todas floresceram sob o mesmo céu cinzento da City — até que o conforto começou a valer mais do que o risco.

 

Londres migrou para o terreno seguro dos títulos verdes e do discurso ESG. Trocou o minério pela retórica da sustentabilidade, o subsolo pelo relatório. Enquanto isso, Austrália e Canadá seguiram fazendo o que Londres esqueceu: assumir o risco da perfuração, da espera, do erro e do acerto.

 

Mas o que Londres perdeu por cansaço, o Brasil segue desperdiçando por cegueira.

 

Vivemos sobre uma geografia de abundância e ausência. O Cerrado, a Amazônia e o Quadrilátero Ferrífero escondem reservas estratégicas de nióbio, lítio, manganês, grafita e terras raras riquezas que poderiam colocar o país no centro da transição energética global. Ainda assim, seguimos exportando minério bruto, como se o chão fosse só chão.

 

Falta política de Estado. Falta estrutura industrial. Falta coragem.

 

Enquanto o capital britânico fugia do risco, nós fugimos do que temos de mais valioso: a capacidade de transformar o que extraímos. O Brasil cava, mas não constrói. Extrai, mas não transforma. Vende o minério, compra o chip. Entrega a riqueza, importa a tecnologia.

 

Byung-Chul Han escreveu que vivemos numa era de exaustão, onde o homem não luta mais contra o inimigo, mas contra o vazio. Talvez seja isso: perdemos o inimigo. O risco virou ameaça, o esforço virou custo, a espera virou fracasso. E assim, a City britânica perdeu o subsolo.

 

O Brasil, por sua vez, enterrou o futuro nas próprias terras raras.

 

O minério está ali... dormindo sob o mesmo solo que chamamos de país. Mas é preciso mais do que perfurar o chão, é preciso coragem pra perfurar a própria indiferença.

 

Referência inspiracional:

Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Vozes, 2017.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/10/2025
Alterado em 14/10/2025
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