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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O anonimato cansado

 

Há uma febre silenciosa nas palavras. Uma ânsia de dizer sem ser visto.

O mundo virou um grande confessionário digital, onde ninguém se ajoelha, mas todo mundo sussurra atrás de máscaras.

 

Pseudônimos, avatares, nicks… nomes inventados para esconder o rosto e inflar o ego.

Uns dizem que é por proteção, outros que é por arte.

Mas há um tipo de covardia nesse esconderijo, um medo de se comprometer com o que se diz.

 

É curioso… essas pessoas escrevem tratados sobre corpo, liberdade, gênero, amor e verdade.

Mas não suportam se mostrar.

Querem ser intelectuais de sombra, filósofos de URL, santos de login.

Falam de autenticidade, mas vivem de disfarce.

 

Eu entendo o pseudônimo quando é poético, quando nasce da alma que cria mundos e precisa de outro nome para caber neles... Mas não quando é estratégia para fugir da carne, do erro, do olhar do outro... Há uma diferença brutal entre criar um nome para ampliar-se e criar um nome para esconder-se.

 

Bataille talvez dissesse que essa é a forma mais tímida do erotismo,a negação do risco...  E Byung-Chul Han completaria: “é o sintoma da transparência perversa”, essa mania de se proteger tanto que se desaparece.

 

A alma líquida, que escorre por medo de fixar-se.

 

Quem se mostra, cansa.

Quem se expõe, perde curtidas.

Quem é de verdade, quase sempre é lido em silêncio, sem fogos, sem tapinhas nas costas...

Porque o real não viraliza.

 

Mas quem mente, quem inventa, quem joga com a ilusão de ser alguém que não é...

esses sempre terão público, porque a mentira seduz mais do que a nudez da alma.

 

E eu fico me perguntando quem é que quer mais ser visto?

O que vive de frente, de rosto aberto, suportando o próprio reflexo?

Ou o que se esconde para ser aplaudido pelo eco das próprias palavras?

 

Talvez o mistério tenha cansado.

Porque o mistério sem corpo não tem cheiro, nem toque, nem verdade.

E o que é misterioso demais...

uma hora, perde o encanto.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/10/2025
Alterado em 14/10/2025
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