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O rio estava quieto... como se aguardasse o primeiro toque dos sinos que anunciam a manhã do Círio.
Nas margens úmidas, as famílias acenavam para o barco da fé, enquanto as fitas coloridas tremulavam como pequenas preces ao vento. E foi nesse instante, entre o rumor das águas e o som distante das vozes, que uma libélula pousou no rosto de uma menina.
Ela tinha cabelos da cor da terra molhada e olhos que refletiam o mesmo verde que nasce entre as folhas após a chuva. A libélula repousou sobre um fio de cabelo seu, imóvel... e o tempo parou.
Naquele breve silêncio, a menina sentiu o que os adultos chamam de fé, mas que ela ainda não sabia nomear. Não era apenas o milagre que passava em procissão sobre as águas, era algo que vinha de dentro... como se o coração também tivesse asas transparentes.
A libélula permaneceu, observando o cortejo das embarcações. O reflexo das luzes se espalhava pela pele da menina, misturando-se às sardas como se cada ponto fosse uma estrela perdida do rio.
Ela entendeu, sem palavras, que a fé é isso... um instante de suspensão entre o que se vê e o que se sente. Entre a vida e o mistério.
Quando o barco da imagem sagrada passou diante delas, o vento soprou forte e a libélula partiu. Voou rente à superfície, tocando a água com delicadeza, como se abençoasse cada onda.
A menina sorriu. Sabia que nunca mais veria aquela libélula... mas também sabia que ela não havia ido embora.
Ficara ali, no ar, no rio, nas veias de emoção que a tomavam por dentro. Porque o Círio, ela compreendeu, é quando até as asas mais frágeis aprendem a carregar o sagrado. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/10/2025
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