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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O rio estava quieto... como se aguardasse o primeiro toque dos sinos que anunciam a manhã do Círio.

 

Nas margens úmidas, as famílias acenavam para o barco da fé, enquanto as fitas coloridas tremulavam como pequenas preces ao vento.

E foi nesse instante, entre o rumor das águas e o som distante das vozes, que uma libélula pousou no rosto de uma menina.

 

Ela tinha cabelos da cor da terra molhada e olhos que refletiam o mesmo verde que nasce entre as folhas após a chuva.

A libélula repousou sobre um fio de cabelo seu, imóvel...

e o tempo parou.

 

Naquele breve silêncio, a menina sentiu o que os adultos chamam de fé, mas que ela ainda não sabia nomear.

Não era apenas o milagre que passava em procissão sobre as águas, era algo que vinha de dentro...

como se o coração também tivesse asas transparentes.

 

A libélula permaneceu, observando o cortejo das embarcações.

O reflexo das luzes se espalhava pela pele da menina, misturando-se às sardas como se cada ponto fosse uma estrela perdida do rio.

 

Ela entendeu, sem palavras, que a fé é isso... um instante de suspensão entre o que se vê e o que se sente.

Entre a vida e o mistério.

 

Quando o barco da imagem sagrada passou diante delas, o vento soprou forte

e a libélula partiu.

Voou rente à superfície, tocando a água com delicadeza, como se abençoasse cada onda.

 

A menina sorriu.

Sabia que nunca mais veria aquela libélula...

mas também sabia que ela não havia ido embora.

 

Ficara ali, no ar, no rio, nas veias de emoção que a tomavam por dentro.

Porque o Círio, ela compreendeu, é quando até as asas mais frágeis aprendem a carregar o sagrado.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/10/2025
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