google.com, pub-2061508496645724, DIRECT, f08c47fec0942fa0


A Noiva do Escorpião
Em algum canto abafado de Belém, onde a chuva cai quente e o cheiro da terra sobe como desejo, viveu uma mulher que se apaixonou por um ser sem sexo, sem nome, sem sombra. Não era homem, nem mulher. Era o que restava quando a carne se desfaz e só o querer persiste. Diziam que ela sorria diferente desde que o conheceu… como quem toca o interdito.
Casaram-se num domingo de calor denso, o ar parado, o rio imóvel. A cidade inteira suava promessas, e os sinos pareciam latejar. Ela entrou vestida de branco, mas o branco parecia sujo, manchado de maniva, de sol, de corpo.
Na noite do casamento, quis consumar o amor. O quarto era simples: cama de madeira, espelho antigo, um ventilador rangendo. Quando tirou o vestido, a lâmpada piscou.
E no espelho, não viu o outro viu a si mesma.
O mesmo rosto, a mesma pele. O mesmo olhar em febre. O mesmo gozo e o mesmo pavor.
Chorou e gemeu, num mesmo som. Chorou e gozou, num mesmo corpo. Bataille diria: o prazer é o instante em que o ser toca sua própria ruína. E foi ali, entre o suor e a vertigem, que ela percebeu o desejo era um espelho, e o amor, uma mutilação.
De repente, o silêncio veio pesado. Um escorpião emergiu debaixo da cama, negro, reluzente, como se tivesse sido moldado na sombra. Ela o olhou sem medo, havia ternura no veneno. Ele subiu por suas pernas, lento, como quem conhece o caminho do delírio. E ela desejou a picada.Quis sentir o limite, o atravessar do corpo, o ardor sagrado da morte.
O escorpião a beijou com o ferrão, bem entre o umbigo e o ventre. E o gozo virou morte. E a morte virou descanso. O corpo arqueou, o olhar se perdeu, e o espelho devolveu uma imagem pálida a noiva imóvel, bela demais para ser viva.
Dizem que, desde aquele dia, o espelho da casa nunca mais refletiu ninguém. Quem se aproxima, jura ver o brilho de um olhar por trás do vidro, um olhar úmido, amazônico, que chora e sorri como quem ainda deseja.
Os antigos contam que, às vezes, nas procissões do Círio, ela aparece entre as promesseiras… com um buquê de jambu e um escorpião preso ao pulso, dançando o delírio de quem foi amada demais pelo próprio reflexo.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 10/10/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|