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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A Noiva do Escorpião

 

Em algum canto abafado de Belém, onde a chuva cai quente e o cheiro da terra sobe como desejo, viveu uma mulher que se apaixonou por um ser sem sexo, sem nome, sem sombra. Não era homem, nem mulher. Era o que restava quando a carne se desfaz e só o querer persiste. Diziam que ela sorria diferente desde que o conheceu… como quem toca o interdito.

 

Casaram-se num domingo de calor denso, o ar parado, o rio imóvel.

A cidade inteira suava promessas, e os sinos pareciam latejar.

Ela entrou vestida de branco, mas o branco parecia sujo, manchado de maniva, de sol, de corpo.

 

Na noite do casamento, quis consumar o amor.

O quarto era simples: cama de madeira, espelho antigo, um ventilador rangendo.

Quando tirou o vestido, a lâmpada piscou.

 

E no espelho, não viu o outro viu a si mesma.

 

O mesmo rosto, a mesma pele.

O mesmo olhar em febre.

O mesmo gozo e o mesmo pavor.

 

Chorou e gemeu, num mesmo som.

Chorou e gozou, num mesmo corpo.

Bataille diria: o prazer é o instante em que o ser toca sua própria ruína. E foi ali, entre o suor e a vertigem, que ela percebeu o desejo era um espelho, e o amor, uma mutilação.

 

De repente, o silêncio veio pesado.

Um escorpião emergiu debaixo da cama, negro, reluzente, como se tivesse sido moldado na sombra. Ela o olhou sem medo, havia ternura no veneno.

Ele subiu por suas pernas, lento, como quem conhece o caminho do delírio.

E ela desejou a picada.Quis sentir o limite, o atravessar do corpo, o ardor sagrado da morte.

 

O escorpião a beijou com o ferrão, bem entre o umbigo e o ventre.

E o gozo virou morte.

E a morte virou descanso.

O corpo arqueou, o olhar se perdeu, e o espelho devolveu uma imagem pálida a noiva imóvel, bela demais para ser viva.

 

Dizem que, desde aquele dia, o espelho da casa nunca mais refletiu ninguém.

Quem se aproxima, jura ver o brilho de um olhar por trás do vidro,

um olhar úmido, amazônico, que chora e sorri como quem ainda deseja.

 

Os antigos contam que, às vezes, nas procissões do Círio, ela aparece entre as promesseiras…

com um buquê de jambu e um escorpião preso ao pulso,

dançando o delírio de quem foi amada demais pelo próprio reflexo.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 10/10/2025
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