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Lux Mortem: A Noiva do Escorpião
Belém dorme sob o peso da chuva. O vento cheira a maniva, e o calor… o calor é quase uma presença. Há uma mulher vestida de branco, parada diante de um espelho que não devolve nada, só neblina.
Dizem que ela se apaixonou por alguém que não tinha sexo. Um corpo neutro... de ar e de desejo. Amava o toque que não vinha, a promessa do que não podia ser nomeado. E quando beijava, sentia gosto de rio... doce, espesso, sem direção.
No dia do casamento, ela dançou sozinha até a lâmpada apagar. O suor escorrendo entre os seios, o véu colado à nuca, o coração descompassado. Quando o espelho se acendeu, ela se viu. E entendeu. Não havia outro... nunca houve. Era ela o que desejava.
Ela... a oferenda. Ela... o altar. Ela... o sacrifício.
Chorou — e o choro era prazer. Gozou — e o gozo era morte. Entre os tremores, quis mais. Quis o limite. Quis a dor que abre as fronteiras do corpo e deixa o espírito sangrar.
Então o escorpião veio. Pequeno, negro, como uma vírgula viva no chão. Subiu devagar, como quem conhece o caminho. E ela sorriu, nua, entregue ao ritual.
A picada foi leve. O ferrão entrou como prece. O sangue pulsou, morno, belo, necessário.
Bataille sussurra em algum lugar: "O erotismo é a aprovação da vida até na morte."
E ela entendeu. O espelho agora a mostrava perfeita carne fria, olhos abertos, boca entreaberta em espasmo eterno.
Os que passam pela casa ainda ouvem ruídos... um sussurro de jambu e febre, um espelho ofegante. E dizem que, quando o Círio atravessa a cidade, ela também caminha... entre as promesseiras, com o escorpião preso ao peito, carregando a flor que nunca murcha, a do amor que mata para existir. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 10/10/2025
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