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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Um mergulho no horror psicológico à luz de Hitchcock e da literatura da loucura.

“Não há nada mais aterrorizante

do que o que se esconde

por trás da normalidade.”

 

Essa frase poderia ser de Hitchcock… e caberia perfeitamente como epígrafe para Monstro: A História de Ed Gein. A série da Netflix não se contenta em narrar a trajetória de um assassino, ela faz algo mais perturbador: convida o assinante a reconhecer os contornos da insanidade dentro do humano comum.

 

Ed Gein não nasce um monstro. É moldado. Lapidado pela culpa, pela obediência cega e pelo fanatismo materno. Sua casa, isolada no campo, lembra o casarão gótico de Psicose: claustrofóbico, cheio de sombras, com o som do vento substituindo o grito. O horror ali não está nas vísceras, está na atmosfera. Hitchcock já dizia que o suspense verdadeiro não é o da explosão, mas o da espera… e é isso que essa série entrega. O desconforto cresce em silêncio, como uma mancha úmida no canto de uma parede.

 

Do ponto de vista psicológico, o roteiro trabalha com a desintegração da identidade. A fronteira entre “eu” e “outro” se dissolve. Ed passa a vestir a pele alheia — literal e metaforicamente. É uma tentativa grotesca de fusão com o feminino, com a figura materna, com aquilo que lhe foi negado: o afeto. Aqui o horror se confunde com o desejo. Bataille diria que o erotismo é sempre um flerte com a morte… e Ed encarna essa ideia de forma brutal.

 

A série não oferece conforto moral. Não há redenção, nem catarse. A câmera, fria e próxima, não julga, apenas observa. E isso é o mais cruel. O assinante se vê diante de um espelho distorcido, onde percebe que o mal não é um ser externo, mas um vazio interno que pode ser alimentado pela solidão, pela culpa e pela repressão emocional.

 

Literariamente, Monstro dialoga com a tradição do realismo psicológico e com o simbolismo do corpo como território da dor. Há ecos de Dostoievski, de Poe, e uma melancolia que lembra o “absurdo” de Camus!  Esse mesmo que via na lucidez um castigo. Porque ver demais, sentir demais, é também um tipo de condenação.

 

No fim, o que a série revela não é o nascimento de um assassino, mas o colapso de uma alma que nunca foi permitida existir. O horror de Ed Gein é o horror de um menino que tentou agradar a mãe até o fim! E acabou se tornando o espelho podre de sua devoção.

 

A obra, portanto, não é sobre monstros. É sobre o que acontece quando o amor é usado como punição, e a fé se transforma em cárcere. Hitchcock sorriria, com aquele meio-sorriso cínico, e diria: “O medo mais profundo é o de nós mesmos.”

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 05/10/2025
Alterado em 05/10/2025
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