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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O Som Que Veio do Fim

Inspirado em “A Morte tocando violino”, de Arnold Böcklin (1872), e na frase de Albert Camus.

 

Sinopse;

Entre o som e o silêncio, o artista pinta o próprio desaparecimento. A morte o observa de perto, não como inimiga, mas como cúmplice.

Um conto experimental sobre o horror de existir, o dom de criar e a beleza de não fugir do fim.

 

Epígrafe:

“O verdadeiro horror da existência não é o medo da morte, mas o medo da vida.” — Albert Camus

 

“E então, a morte se aproximou... não para levar, mas para lembrar.” — Monet Carmo

 

Texto

 

pintar é uma forma de adiar o fim.

o pincel, extensão da carne, tenta dizer ao tempo: espera, ainda não.

 

mas o tempo ri.

ri em silêncio.

um riso de cordas finas, tocadas por dedos que não têm mais carne.

 

a morte toca violino atrás do meu ombro.

não desafina, não erra o compasso.

ela sabe a música de cor, afinal, foi ela quem escreveu a partitura.

 

pinto meu próprio rosto, e o reflexo já me devolve mais pálido.

o olhar se perde entre o medo e o fascínio.

é estranho: nunca me senti tão vivo quanto agora, tão perto dela.

 

 “o horror não está em morrer, mas em continuar existindo sem mudar”,

disse Camus.

e talvez pintar seja isso!

morrer devagar em cada traço,

matar o tédio com cor,

dar forma àquilo que corrói.

 

às vezes penso que ela não veio me buscar.

veio me inspirar.

cada nota que ela arranca do violino é um lembrete:

não há arte sem perda.

não há criação sem a sombra do fim.

 

ela se inclina, o arco desliza,

e por um instante o som atravessa tudo

o medo, o corpo, a tela.

sou eu, sou ela, somos o mesmo instante que se repete.

 

pinto mais uma vez.

a cor é escura.

mas viva.

tão viva que parece pulsar.

 

quando ergo o olhar, ela ainda está ali.

sorri.

o violino silencia.

e o quadro... respira.

 

Notas da autora — leitura simbólica

O violino nas mãos da Morte

não é ameaça, é ironia.

Ela não vem em silêncio, como esperávamos, vem tocando.

Transforma o fim em melodia,

como quem ensina o artista que até o desespero pode ser ritmo.

É a lembrança de que

a criação sempre nasce

do ruído entre a vida e o vazio.

 

O olhar do pintor é o mais humano da cena: fixo, lúcido, cansado.

Ele sabe que está sendo observado...

mas continua pintando.

Esse gesto contém a mais profunda

das resistências:

seguir criando mesmo sabendo

que tudo termina.

 

O pincel, essa extensão da alma, é também uma arma contra o esquecimento.

Cada traço é uma tentativa de enganar o tempo,

de atrasar o inevitável.

E talvez por isso a Morte sorri:

ela sabe que, ao tentar detê-la,

o artista a imortaliza.

 

O violino é o som da consciência.

O quadro, o retrato da entrega.

E o horror, como disse Camus,

não está na morte,

mas na repetição de uma vida sem sentido.

A arte, então, é a única

rebeldia possível.

 

Criar é morrer em pequenas doses.

E aceitar isso é o que torna o humano insuportavelmente belo.

 

Dedicatória:

 

dedico este texto a todos os que continuam criando, mesmo quando o mundo já parece ter desistido.

aos que pintam no escuro, escrevem cansados, tocam sem plateia.

aos que entendem que arte

não é refúgio, é confronto.

que a beleza nasce do que fere,

e o som do violino

só ecoa porque alguém

se atreveu a encarar o fim

sem abaixar o pincel.

 

porque no fundo...

o artista nunca vence a morte.

mas às vezes,

por um instante,

ele a faz dançar.

 

Epílogo — diário do pintor

 

hoje terminei o quadro.

e pela primeira vez, tive medo do que criei.

 

a tinta ainda úmida parece me observar.

há algo vivo nela, ou morto demais.

senti que, a cada traço, não pintava a morte...

pintava o que restou de mim.

 

ela, atrás, silenciosa, segurava o violino como quem guarda um segredo.

não me ameaçou.

só esperou.

 

e eu entendi.

não se trata de fugir dela,

mas de escutá-la.

 

há uma música que só os vivos cansados conseguem ouvir.

uma melodia lenta, quase doce, que fala do fim,

mas também do recomeço.

 

terminei o quadro,

mas é ele que me termina agora.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 05/10/2025
Alterado em 05/10/2025
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