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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Kongjian Yu — sonhava com cidades vivas.

 

Kongjian Yu nasceu em 1963, em Zhejiang, na China. Filho de agricultores, cresceu vendo a água, a terra e as pessoas numa relação direta de sobrevivência. Foi esse olhar simples e profundo que carregou até a universidade, onde se formou em arquitetura paisagística em Pequim, e depois levou ao mundo, ao conquistar o doutorado em Harvard. Não era apenas um arquiteto… era alguém que entendia a cidade como parte do ecossistema e que se recusava a aceitar a lógica do concreto impermeável que sufoca rios, árvores e gente.

 

Professor respeitado e fundador da Faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim, Yu criou também o escritório Turenscape, responsável por intervenções em mais de 250 cidades. Mas seu maior legado não está apenas nos projetos, e sim no conceito que virou bandeira: as chamadas “cidades-esponja”. A ideia parecia simples, deixar que a cidade absorva a água em vez de expulsá-la com violência, mas exigia coragem para desafiar décadas de urbanismo baseado em canalizações e muros de concreto. Ele defendia que parques, jardins, áreas permeáveis e rios restaurados poderiam salvar cidades de enchentes, melhorar a qualidade da água e oferecer vida digna em tempos de crise climática.

 

Yu falava de clima, mas sobretudo falava de gente. Ao pensar numa rua, não via apenas o fluxo de carros… via árvores dando sombra, pavimentos que respiram, espaços que refrescam e acolhem. Ao falar de drenagem, lembrava que cada gota de água podia ser armazenada, filtrada, devolvida com respeito ao ciclo natural. Essa visão não era poesia distante, mas política pública na China e inspiração para o mundo.

 

No Brasil, ele encontrou terreno fértil para seus sonhos. Viu em nossas águas e florestas uma oportunidade única de o país se tornar referência global em urbanismo sustentável. Alertava para não repetirmos os erros de uma urbanização cega, impermeabilizada, sem diálogo com a natureza. Para ele, o Brasil podia mostrar ao mundo que é possível crescer sem destruir, que é possível planejar cidades que respeitem o meio ambiente e cuidem das pessoas.

 

Sua morte trágica em 23 de setembro de 2025, no Pantanal sul-mato-grossense, interrompeu uma trajetória que ainda tinha muito a oferecer. Mas sua voz continua ecoando em cada praça que funciona como reservatório natural, em cada cidade que decide plantar mais árvores do que colunas de concreto. Kongjian Yu deixa mais que obras: deixa um chamado.

 

Num tempo em que o clima castiga, ele nos lembra que resistir é também reaprender a conviver com a água, a terra e a vida. Seu legado não é apenas chinês, nem apenas acadêmico… é universal. Cabe a nós, sobretudo aqui no Brasil, decidir se vamos atender ao convite que ele fez: transformar nossas cidades em espaços de cuidado, resiliência e humanidade.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/09/2025
Alterado em 24/09/2025
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