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Canais de Denúncia: Entre o discurso ético e a prática corporativaNas cartilhas institucionais, os canais de denúncia aparecem como símbolo de ética e governança. São apresentados como instrumentos capazes de proteger quem fala, corrigir distorções e reforçar valores como integridade, segurança e respeito. Mas quando o incômodo vem da alta gestão, esses canais mostram sua fragilidade: o discurso de cultura e valores se desfaz diante da prática do poder.
O caso de Cátia Porto é emblemático. Ela foi desligada após se posicionar em suas redes sociais em defesa de uma cultura que a própria empresa dizia promover. A coragem virou ameaça. Em vez de reconhecimento por coerência ética, veio a retaliação.
A minha experiência não foi diferente. Ao questionar um gerente de RH por um ato inseguro, alinhado ao discurso de “pacto pela vida” estampado em todos os murais, recebi de volta não uma escuta, mas uma punição silenciosa. Fui afastada, e o gestor ganhou espaço para manter práticas que poderiam gerar acidentes. O valor da segurança, nesse caso, não resistiu ao choque com a conveniência da hierarquia.
O mesmo padrão se repete em outras esferas. Veja a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Com a saída repentina de João Pedro Nascimento, o diretor Otto Lobo assumiu a presidência interina com o chamado “voto de minerva” em um colegiado desfalcado. Sua postura, descrita como cautelosa, costuma se traduzir em pedidos de vista, adiamentos constantes que, segundo ele, servem ao zelo técnico. Mas para parte do mercado, essa cautela virou sinônimo de morosidade e insegurança em decisões críticas.
Não é um detalhe menor: estamos falando de julgamentos que envolvem casos de grande repercussão, como Americanas, Brumadinho, Banco Master e Ambipar. Em alguns, o pedido de vista adiou o desfecho por meses; em outros, a decisão final acabou beneficiando os acusados. É nesse espaço de silêncio conveniente que o burburinho sobre sua tese de doutorado se mistura à prática: até que ponto a profundidade acadêmica justifica a falta de clareza e firmeza em decisões que impactam milhares de pessoas e bilhões de reais?
O que conecta esses episódios: Cátia Porto, meu caso, a própria CVM. É a constatação de que a coerência cultural das empresas e instituições não é testada na propaganda, mas na forma como lidam com quem questiona de dentro. O canal de denúncia, as redes sociais, a voz do colaborador ou de um diretor interino só têm valor enquanto não tocam na ferida.
E a pergunta que fica é simples e incômoda: queremos ferramentas que de fato transformem a cultura organizacional ou apenas vitrines bonitas, capazes de calar quem ousa incomodar o status quo? Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/09/2025
Alterado em 13/09/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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