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O que a tese de doutorado do presidente interino da CVM revela sobre nossa cultura de silêncio

Presidente interino da CVM é visto como ‘cauteloso’ e costuma pedir ‘vistas’

 

A recente repercussão em torno da tese de doutorado do presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Lobo, acendeu um sinal de alerta que vai além dos corredores de um órgão regulador. O burburinho em grupos de WhatsApp não surgiu apenas pelo título de “doutorando”, mas pelo contexto em que ele assume a presidência interina: um colegiado desfalcado, com dois assentos vagos, e o peso do chamado “voto de minerva” em decisões de grande relevância para o mercado.

 

O que inquieta não é a tese em si, cujo conteúdo ainda não foi tornado público, mas a combinação entre formação acadêmica avançada e um perfil conhecido pela cautela excessiva. Otto Lobo, que é mestre em Direito e doutorando em Direito Empresarial pela USP, costuma pedir vistas nos processos, adiando julgamentos sob a justificativa de buscar mais profundidade técnica. Para alguns, isso representa zelo. Para outros, morosidade em uma autarquia que já carrega fama de lentidão.

 

Esse comportamento ganha outra dimensão quando lembramos dos processos que passaram por suas mãos: a absolvição de Sérgio Rial no caso Americanas, a condenação parcial no caso Brumadinho, a demora no acordo com o Banco Master, e a análise da OPA da Ambipar. Cada pedido de vista, cada adiamento, reforça a desconfiança de que decisões cruciais podem ser moldadas não só pela técnica, mas também por pressões externas.

 

É nesse ponto que entra o burburinho: afinal, qual a linha defendida em sua tese? Qual é o entendimento acadêmico que pode transparecer em sua atuação como regulador? Haveria uma visão mais branda sobre responsabilidade e dever de diligência? Ou o rigor acadêmico será convertido em rigor institucional? A ausência de transparência sobre o conteúdo abre espaço para especulações e, em tempos de crise de confiança, especulação é combustível para ruído.

 

Peter Drucker já advertia: “A cultura come a estratégia no café da manhã.” Se a cultura institucional for a do silêncio e do adiamento, nenhuma estratégia de fortalecimento regulatório resiste. Kotler lembra que empresas e também órgãos públicos, não são ilhas: são organismos inseridos em um ecossistema social, e sua legitimidade depende da capacidade de dialogar com esse ambiente.

 

A crítica aqui não é ao doutorado em si, mas ao modo como ele se entrelaça com a função pública. O conhecimento acadêmico deveria ser visto como contribuição, mas está sendo tratado como ameaça, porque expõe uma incoerência: quando a teoria não encontra prática, o vácuo é preenchido pela dúvida.

 

O episódio da CVM deveria servir de lembrete: crítica não é traição, é maturidade. Conhecimento não atrapalha, fortalece. Sanções e silenciamentos não protegem instituições, apenas revelam sua fragilidade.

 

No fim, a questão não é se Otto Lobo terminará ou não sua tese, mas se a CVM terá coragem de fazer o que a academia sempre exigiu: enfrentar o debate, em vez de empurrá-lo para depois.

 

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Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/09/2025
Alterado em 13/09/2025
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