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A demissão de Cátia Porto da VALE... Entre o discurso e a prática: quando questionar valores custa um cargoNos últimos dias, o desligamento de Catia Porto, ex-vice-presidente global de Recursos Humanos da Vale, após suas declarações sobre a “perda de espaço da cultura woke” nas empresas, acendeu um alerta não apenas no meio corporativo, mas também para todos que acreditam na importância de debater missão, visão e valores institucionais.
O caso revela como, em ambientes empresariais de grande porte, o simples ato de questionar narrativas estabelecidas, seja em torno da diversidade, seja em torno do mérito, pode levar não a uma reflexão coletiva, mas a uma reação punitiva.
A contradição entre discurso e realidade
A Vale, como tantas outras multinacionais, tem no discurso corporativo valores como ética, integridade, diversidade e sustentabilidade. No entanto, quando um executivo de alto escalão decide tensionar esses conceitos, trazendo à tona contradições, o espaço de diálogo se transforma em um espaço de risco.
Minha própria experiência confirma isso: ao questionar missão, visão e valores de minha empresa diretamente a um gerente, em vez de provocar um movimento de revisão e alinhamento, o resultado foi o mesmo — desligamento. Não por incompetência técnica, mas por ter ousado expor incoerências.
Entre o mérito e o “woke”
É curioso observar como as palavras ganham conotações distintas conforme a conveniência. Como disse o professor Clóvis de Barros Filho, “valores só existem quando custam algo”. Quando se trata de manter privilégios, fala-se em mérito. Mas quando se trata de abrir espaço para inclusão, chama-se de woke, quase sempre em tom pejorativo.
Essa disputa semântica esconde uma realidade: por trás do debate, há o medo da mudança. O medo de perder posições de poder e de rever estruturas engessadas.
A cultura corporativa como campo de batalha
O consultor Jim Collins, autor de Empresas Feitas para Vencer, lembra que “valores centrais não são criados... são descobertos”. Ou seja, não adianta imprimir palavras bonitas em murais se a prática organizacional contradiz esse discurso.
No Brasil, o coach e escritor Luiz Gaziri reforça em A Ciência da Felicidade que empresas que promovem culturas de diálogo genuíno têm maior engajamento, inovação e resultado financeiro. O contrário, culturas de silenciamento, mina a criatividade e aumenta a rotatividade.
Reflexos pessoais e coletivos
Ao olhar para minha trajetória, percebo que o desligamento não é apenas uma questão individual, mas estrutural. Ele revela uma lógica onde questionar significa se tornar uma ameaça. E se líderes de RH de nível global e profissionais com anos de contribuição são punidos pelo ato de pensar criticamente, que segurança terão os demais colaboradores?
O desafio de uma liderança ética
Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, afirmou: “A cultura come a estratégia no café da manhã”. Em outras palavras, pouco adianta ter planejamentos brilhantes se a cultura organizacional não sustenta o discurso.
No caso da Vale, a reação à fala da executiva não apenas expôs fragilidades culturais, mas também reforçou a distância entre o que se prega e o que se pratica.
Conclusão: o preço da coerência
O episódio de Catia Porto e tantos outros, como o meu, demonstram que ainda vivemos em ambientes onde coerência custa caro. O espaço para questionar deveria ser a essência da evolução empresarial. Mas, na prática, quem aponta incoerências paga o preço da exclusão.
Resta a nós, profissionais que acreditam em gestão inteligente, colocar as pessoas no centro e insistir que ética, diálogo e segurança psicológica não são pautas “woke”... são a base de empresas que verdadeiramente querem resultados sustentáveis.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/09/2025
Alterado em 13/09/2025 Comentários
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