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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Bolsonaro foi finalmente levado ao banco dos réus. Não era mais o mito, não era mais o capitão de bravatas em lives. Era apenas um homem miúdo diante da liturgia do Supremo, vestido de silêncio, cercado pela própria ruína.

 

Ali se ouviu a voz de Flávio Dino, com a frieza cirúrgica de quem desmonta um castelo de mentiras peça por peça. Sem gritos, sem exaltação: apenas fatos, dados e a contundência de quem lembra que democracia não se negocia. Alexandre de Moraes, por sua vez, foi a rocha... sem rodeios, reafirmando que quem tenta golpe não é patriota, é criminoso.

 

E então veio Carmen Lúcia. Não apenas ministra, mas mulher em toda a sua inteireza. Cada palavra dela era uma sentença contra a misoginia que Bolsonaro carregou como bandeira. Na sua fala calma, havia séculos de mulheres silenciadas que enfim respondiam. Ao ouvi-la, era impossível não sentir que ali estava a vingança ética de todas nós... não com ódio, mas com a autoridade que só a dignidade concede.

 

E então, o voto de Cristiano Zanin. Sem discursos inflamados, sem desvios. Rejeitou preliminares, confirmou provas, enquadrou Bolsonaro como eixo da trama criminosa. O fio condutor não era dúvida: era ele. A soma dos votos consolidava não só a culpa, mas a vergonha histórica de um ex-presidente que transformou o cargo mais alto da República em instrumento de sabotagem contra a própria República.

 

Do outro lado, 13 horas de Luiz Fux tentando defender o indefensável. Uma verborragia contraditória, uma retórica que se contorcia em sua própria incoerência. Parecia mais a agonia de um tempo que não volta, a tentativa desesperada de dar verniz jurídico a um projeto que naufragou. Enquanto Dino e Carmen construíam futuro, Fux tropeçava em um passado cúmplice.

 

O julgamento de Bolsonaro não é apenas o fim de uma biografia política manchada por mortes na pandemia, pela fome ressuscitada e pelo desprezo às mulheres. É também o retrato do Brasil diante do espelho: por um lado, a coragem de ministros que não se curvaram; por outro, a covardia de quem ainda tenta relativizar o óbvio.

 

Hoje, o país sabe que justiça não devolve os mortos, não apaga a humilhação das mulheres, não cura as feridas abertas. Mas justiça nomeia o crime, e ao nomeá-lo, retira dele a coroa. Bolsonaro condenado não é um troféu. É apenas o mínimo ético para que possamos, enfim, respirar.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/09/2025
Alterado em 11/09/2025
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