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Iryna e o fracasso do contrato socialA imagem de Iryna encolhida no banco azul, mãos no rosto, deveria bastar para desmontar qualquer discurso de progresso. Uma refugiada que escapou da guerra na Ucrânia encontrou a morte no coração de uma cidade que se apresenta como desenvolvida. Não foi apenas a faca… foi o Estado que falhou, a Justiça que se omitiu, a saúde mental que não cuidou, a sociedade que não reagiu.
Nos Estados Unidos, mais da metade dos adultos com transtornos mentais não recebe tratamento adequado. No Brasil, a estatística é ainda mais cruel: cerca de 56 milhões de pessoas convivem com algum transtorno psíquico, e 8 em cada 10 não têm acesso ao tratamento. O resultado? Bombas-relógio sociais que circulam sem acompanhamento, até que o desespero explode em violência. Psiquiatras forenses já alertam: sem estrutura, a fronteira entre doença e crime se rompe, e quem paga o preço é sempre o inocente.
Foucault falava do biopoder que administra a vida e a morte. Arendt lembrava da banalidade do mal, que não exige monstros, mas sim a indiferença de cada burocrata, de cada passageiro imóvel. E no entanto, seguimos repetindo o mesmo roteiro: o juiz que solta, o sistema de saúde que não trata, o transporte que não protege, a população que olha para o lado.
Enquanto isso, no Brasil, 97% das mulheres já sofreram assédio em transportes públicos. Mais de 21 milhões sofreram algum tipo de violência só no último ano. O medo virou rotina. Se em São Paulo 52% das mulheres dizem temer o transporte, o que dizer de Iryna, sozinha, encolhida, sem ninguém? Os direitos humanos foram invocados para o agressor… mas quem os invoca para a vítima?
A morte de Iryna não aconteceu apenas num vagão americano. Ela ecoa em cada ônibus, trem e metrô onde mulheres viajam com medo, em cada CAPS superlotado, em cada estatística de homicídio que naturalizamos. É a prova de que o contrato social; esse pacto que deveria garantir vida, segurança e dignidade está em ruínas.
E talvez o mais doloroso seja admitir que não foi apenas uma faca que matou Iryna. Foi a soma da omissão de todos nós.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 11/09/2025
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