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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O silêncio que adoece...

Há dores que não se veem... carregam-se escondidas nas frestas da alma, onde a luz demora a alcançar. São dores que não gritam, mas adoecem... e a cada silêncio imposto, um pedaço de quem somos se perde.

 

Muitas vezes, o corpo fala antes da boca: insônia, crises de ansiedade, dores sem nome. O organismo denuncia o que a mente insiste em calar. É como se dentro de nós houvesse um campo minado, onde cada lembrança e cada frustração não resolvida fossem explosivos prontos a detonar.

 

O silêncio imposto não é sinônimo de paz... é uma prisão onde a pessoa se acostuma a encolher a própria voz. No ambiente de trabalho, por exemplo, quantas vezes alguém prefere engolir a injustiça a correr o risco de ser silenciado de forma ainda mais brutal? Em casa, quantas mulheres deixam de denunciar agressões por medo do julgamento ou da indiferença? Quantos profissionais, diante do abuso de poder, optam por se calar porque sabem que a estrutura foi feita para esmagar a insubmissão?

 

Esse silêncio custa caro. Ele mina a saúde, corrói a confiança e instala um vazio difícil de preencher. Vazio que, muitas vezes, só encontra eco quando já é tarde demais — quando a depressão chega, quando a doença se instala, quando a esperança se esgota.

 

Mas não é apenas no campo individual que o silêncio pesa. Sociedades inteiras se alimentam da omissão. Ditaduras se sustentam porque muitos se calaram. Empresas adoecem porque suas lideranças confundem autoridade com autoritarismo. Famílias se desmancham porque, em vez de diálogo, preferem manter segredos que viram feridas abertas.

 

O silêncio que adoece é aquele que se confunde com conivência. É quando, diante de um erro, escolhemos virar o rosto. Quando, diante de uma injustiça, preferimos a zona de conforto da neutralidade. Quando nos escondemos atrás da desculpa de que “não é problema meu”.

 

Romper esse ciclo é ato de coragem. É escolher dar nome às coisas, ainda que doa. É criar espaço para a escuta, mesmo quando o que ouvimos desmonta nossas certezas. É reconhecer que não somos máquinas programadas para suportar tudo, mas seres humanos que precisam de voz, acolhimento e respeito.

 

A história prova que calar nunca foi solução. Martin Luther King já lembrava que “o que mais preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. E se ainda hoje repetimos essa frase é porque continuamos a pagar caro por cada silêncio que aceitamos como normal.

 

Não há remédio para uma vida abafada... há apenas a escolha de falar. De denunciar. De se posicionar. De escrever o que precisa ser escrito. O silêncio pode ser confortável no início, mas sempre será traiçoeiro no fim.

 

E talvez a verdadeira coragem esteja justamente nisso: não permitir que o silêncio nos custe a saúde, a dignidade e, sobretudo, a nossa humanidade.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 07/09/2025
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