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"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Quando a Excelência Incomoda: Reflexões sobre Segurança, Poder e Cultura Organizacional

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” – Charles Darwin

 

Essa frase de Darwin dá sentido não apenas a biologia, mas também o mundo corporativo. Porém, há ambientes em que a adaptação não é sinônimo de crescimento, mas de conformismo. Quando questionar padrões, propor melhorias ou denunciar riscos se torna uma ameaça, a organização demonstra não estar pronta para evoluir.

 

Recentemente, vivi um episódio emblemático: após relatar uma ultrapassagem perigosa feita pelo meu próprio gestor — conduta que poderia ter causado um acidente grave — levei o tema à gerente de saúde e segurança. Mais do que denunciar, propus uma ação conjunta com a comunidade, visto que a empresa era patrocinadora da melhoria das condições da estrada. Não era apenas uma crítica… era uma solução.

 

A resposta que recebi? Fui chamada para uma conversa em que, após poucos minutos, estava sendo desligada. O motivo: eu era uma “excelente profissional, que contribuiu bastante, que abriu cabeças, mas que tinha um olhar que a empresa não teria”. Em outras palavras: fui demitida por ser boa demais.

 

Estudo de Causa: quando a raiz é cultural

 

Do ponto de vista de análise organizacional, esse episódio pode ser tratado como um estudo de causa. Aplicando o método dos 5 Porquês:

 

1. Por que fui desligada? Porque questionei condutas inseguras e propus mudanças.

 

2. Por que isso incomodou? Porque expôs falhas de comportamento e gestão.

 

3. Por que expor falhas gera incômodo? Porque há uma cultura de manutenção de imagem e não de melhoria contínua.

 

4. Por que a cultura se mantém assim? Porque a liderança prefere estabilidade política interna a transformações reais.

 

5. Por que a liderança escolhe o conforto? Porque mudar exige coragem, e coragem muitas vezes ameaça o poder estabelecido.

 

A causa, portanto, não é técnica, mas cultural. A organização não me desligou pela minha incapacidade, mas pela sua própria dificuldade de lidar com excelência e transparência.

 

O dilema entre o discurso e a prática

 

Peter Drucker já dizia: “A cultura devora a estratégia no café da manhã”. Não importa quantos planos estratégicos, metas de sustentabilidade ou projetos de modernização uma empresa tenha… se a cultura não sustentar a prática, tudo se perde.

 

Do ponto de vista político, a lógica se aproxima da de Maquiavel: “É melhor ser temido do que amado, se não se pode ser ambos.” Algumas lideranças escolhem o temor do silêncio ao invés do respeito conquistado pela escuta. O problema é que, no longo prazo, esse tipo de escolha não fortalece… apenas fragiliza.

 

E no campo filosófico, Foucault ajuda a explicar: o poder se exerce, não se possui. E, ao se exercer, o poder se defende daqueles que ousam questionar sua lógica. Questionar a segurança na estrada foi questionar a engrenagem do poder interno.

 

As lições que ficam

 

1. Segurança não pode ser relativizada. O risco de acidente é objetivo, e a omissão diante dele é uma escolha ética grave.

 

2. Excelência não deve ser punida. Quando uma empresa demite por medo de mudança, ela reforça sua própria estagnação.

 

3. O silêncio custa caro. Hannah Arendt dizia que “o maior mal é cometido por pessoas que nunca decidem ser boas ou más”. A passividade diante do risco é uma forma de violência.

 

 

4. A liberdade é também libertação. Ser desligada por ser boa demais não é apenas uma injustiça… é também a prova de que não cabia mais permanecer em um espaço pequeno.

 

Conclusão

 

Do ponto de vista empresarial, demitir quem incomoda por fazer bem feito é uma decisão de curto prazo, que alivia tensões internas, mas compromete a sustentabilidade de longo prazo. Do ponto de vista humano, é um lembrete de que coragem sempre terá um custo… mas que viver sem ela custa ainda mais.

 

No fim, como disse José Mujica: “Não sou pobre, sou sóbrio, leve. Tenho o suficiente para viver. O que importa é ser livre.”

 

E é isso: a liberdade de não caber em ambientes que escolhem a mediocridade em vez da excelência é, por si só, uma vitória

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/09/2025
Alterado em 04/09/2025
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