![]() Entre o fim de uma era e a chance de um novo mundo
Vivemos um momento da história em que o tabuleiro do poder global parece ter virado. O que antes era previsível e centralizado, hoje se tornou instável e fragmentado. A política comercial agressiva dos Estados Unidos, impulsionada por uma visão protecionista e nacionalista, nos faz lembrar que o mundo nunca esteve tão perto de repetir velhos erros — e, talvez, de escrever novas possibilidades.
Donald Trump, ao adotar tarifas contra quase todos os parceiros comerciais dos EUA, acendeu um alerta: a era da globalização liberal, onde o livre comércio era o mantra, está sendo desmontada por dentro, pelos próprios que a criaram. Em resposta, a China aplicou tarifas de igual valor. O Brasil e outras nações em desenvolvimento, que por décadas foram ensinadas a confiar nas "regras do jogo" global, agora se veem à margem dele.
Em tempos como este, lembramos das palavras de Nelson Mandela: "Tudo parece impossível até que seja feito". Esse espírito é o que precisa mover os países do Sul Global — especialmente os que compõem o BRICS — a tomarem o protagonismo que lhes foi historicamente negado. A soberania, como disse o presidente Lula, "não bate continência para nenhuma outra bandeira que não seja a verde e amarela". Isso vale para o Brasil, mas também para qualquer nação que deseja ser dona do seu destino.
O BRICS pode ser mais do que um bloco econômico. Pode ser uma proposta de mundo. Um mundo onde a cooperação não seja dependência, onde o comércio seja justo e onde o multilateralismo não seja só discurso em cúpulas. Essa visão foi plantada em discursos como o de Nehru, primeiro-ministro da Índia, quando dizia: "A paz não pode ser mantida pela força; só pode ser alcançada pela compreensão" — ecoando Einstein.
Mas há riscos. A guerra na Ucrânia nos lembra que o uso da força ainda é uma moeda de troca no cenário global. E que alianças mal calculadas podem comprometer a legitimidade de projetos coletivos. A Rússia, embora essencial ao BRICS, carrega hoje um fardo geopolítico difícil de equilibrar com a imagem de um bloco que se quer defensor da paz e da cooperação.
Além disso, o meio ambiente, as armas biológicas e a manipulação de tecnologias sensíveis (como a inteligência artificial e os dados genéticos) estão se tornando os novos campos de batalha invisíveis. A disputa já não é apenas por território ou petróleo — é por informação, minerais raros, alimentos, água e, no limite, pela vida.
Como dizia Hannah Arendt, "O que torna a sociedade possível não é a obediência, mas a responsabilidade". Talvez essa seja a chave para o momento atual. Os países que historicamente obedeceram agora precisam assumir a responsabilidade de construir um novo caminho. O BRICS, se guiado por responsabilidade, coragem e justiça, pode ser um dos instrumentos para isso.
Não se trata de vencer os Estados Unidos ou a Europa. Trata-se de sobreviver com dignidade num mundo em transição. E, quem sabe, de reescrever as regras. Como ensinou Paulo Freire, "ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão". O futuro será de quem conseguir construir essa comunhão — entre povos, entre blocos, entre ideias.
É o fim de uma era, sim. Mas talvez, também, o nascimento de outra. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 04/04/2025
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