... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O desconforto dos que não suportam ser contrariados

 

Tudo começou com um texto. Um entre tantos outros que escrevo não para provocar, mas para refletir. Com base na série “Adolescentes”, da Netflix, mergulhei na discussão sobre os chamados incels — um fenômeno que não é novo, mas ganhou roupagem digital. Usei o que me é familiar: a filosofia. Recorri a Kierkegaard, Nietzsche, Freud, Sade… e costurei, com cuidado e referências, uma análise crítica sobre o comportamento de uma parcela de homens que não suporta o avanço da autonomia feminina.

 

E foi aí que, como num chamado irresistível, um homem resolveu me escrever.

 

Um "crítico literário", como se apresenta. Um desses que coleciona invernos, mas não sabedoria. Um homem que se incomoda profundamente com o mundo moderno — e ainda mais com mulheres que pensam por si. Sua primeira mensagem já veio carregada de ranço, citando pensadores como se fossem escudos, e tentando me corrigir como se fosse tutor do pensamento alheio.

 

Fui educada. Li. Entendi o tom. Respirei fundo e deixei passar.

 

Mas o incômodo dele persistiu. Talvez por eu não ter reagido como ele esperava. Talvez por eu não ter recuado. Ou talvez simplesmente porque ele precisava de um alvo para despejar seus conflitos mal resolvidos.

 

Vieram outros e-mails, todos marcados por um tom superior, quase dogmático. Não havia diálogo. Havia uma necessidade quase doentia de me diminuir, de me colocar em um lugar que ele considera “adequado” para uma mulher: o da escuta silenciosa, submissa, envergonhada de pensar.

 

O curioso é que, em nenhum momento, me declarei feminista. Não uso bandeiras. Uso pensamento. Mas para ele, minha ousadia em questionar, escrever e não recuar já era motivo suficiente para o rótulo. Porque é isso que fazem: quando não suportam o conteúdo, atacam quem escreve.

 

O que esse senhor, no alto de sua pose de escritor, ainda não entendeu, é que o tempo em que se gritava sobre mulheres sem ouvir suas vozes já passou. Ele pode até continuar escrevendo — é um direito. Mas não tem mais o poder de calar.

 

E talvez isso o incomode mais do que qualquer linha que eu tenha escrito.

 

Porque o problema nunca foi o texto.

Foi a ousadia de uma mulher pensar — sem pedir permissão.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 31/03/2025
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