... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A cor da pausa

 

Tem dias em que o silêncio não é ausência. É presença firme. É escolha consciente. É o corpo inteiro dizendo: “por aqui, não”.

 

Recebi uma mensagem que não me atravessou. Tentou, mas bateu na porta certa: a da minha lucidez. Era um texto enviesado, carregado de ressentimento travestido de erudição. Um amontoado de citações mal costuradas e críticas com ares de superioridade. Um homem — escondido atrás de palavras rebuscadas — sentiu-se no direito de me explicar o mundo. E a mim.

 

Houve um tempo em que isso talvez me ferisse. Hoje, só me cansa. Não por falta de força, mas por excesso de consciência. Não tenho mais energia para debater com quem não escuta, apenas ataca. Não me interessa rebater frases que nascem do medo disfarçado de moral, da insegurança pintada com tintas de arrogância.

 

Ele esperava raiva. Talvez um texto de volta. Uma resposta à altura da agressão. Mas eu lhe dei o que ele não suportaria: o desprezo do meu tempo. A pausa da minha atenção. A recusa do meu palco.

 

E, entre uma linha e outra, segui. Reafirmei minha fé no pensamento crítico, no espaço das mulheres que não precisam pedir licença para existir, na beleza de um silêncio que sabe exatamente o que está fazendo.

 

A ambrosia, ele disse, tinha cor de caviar. Que fique com ela. Eu prefiro os sabores que se colhem quando a boca não está ocupada demais com palavras que não edificam.

 

***

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Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 31/03/2025
Alterado em 31/03/2025
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