... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

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“Química é faísca. Alquimia é fogo que cuida.”

 

Não sei em que momento da vida começaram a nos vender que o amor bom é aquele que queima. Que começa com pele, desejo, suor e urgência. Que se mede pela intensidade da falta, pelo aperto no peito, pela vontade de estar colado o tempo inteiro. Talvez tenha sido nos filmes, nos livros, ou naquela ideia torta de que “amar de verdade” tem que doer um pouco — ou muito.

 

Só que, depois de um tempo, a gente cansa de fogos de artifício.

A gente começa a desejar o fogo de chão: aquele que aquece sem pressa, que dura a noite inteira, que vira brasa boa pra esquentar conversa, silêncio e alma.

 

A química é fácil.

Basta um olhar cruzado, uma sintonia breve, e o corpo responde.

A alquimia… ah, essa exige presença, entrega e tempo.

Não se faz alquimia sem verdade. Sem a coragem de se mostrar vulnerável, sem o ego inflado, sem os jogos.

 

Na alquimia, o toque vem depois da conversa.

O beijo acontece depois do respeito.

E o amor se firma depois que o encanto já foi testado pela realidade.

 

É ali, no dia a dia, que a gente descobre se o que sente é só química ou se já virou algo maior.

Porque quando acaba o brilho do início, sobra o quê?

Na química, sobra o vazio.

Na alquimia, sobra parceria.

 

Eu já me queimei por não saber a diferença.

Já confundi tesão com conexão, presença com apego, cuidado com controle.

Mas o tempo — esse alquimista paciente — foi me ensinando que amor de verdade não grita.

Ele acolhe.

Não invade. Ele respeita.

Não prende. Ele caminha junto.

 

A química é o convite.

A alquimia é a resposta.

 

E quando a gente encontra alguém com quem dá pra ser inteiro, sem medo, sem disfarce, sem roteiro…

Aí sim, começa o que realmente vale a pena.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 29/03/2025
Alterado em 29/03/2025
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