... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O silêncio de Jamie, a raiva e os gritos não ouvidos: entre Sade, Freud e Kierkegaard

 

Jamie não estava calado. Ele estava implodindo em voz alta, mas ninguém escutava porque o vocabulário dele não era o mesmo dos adultos. Porque sua dor não era ordenada, articulada ou "aceitável". E isso é mais comum do que parece. Tem muito Jamie perdido por aí — e a sociedade se faz de surda.

 

Marques de Sade, no auge do seu niilismo erótico, dizia que a repressão da natureza humana gera perversão. Jamie é o produto de uma cultura que nega afeto, sensibilidade e expressão legítima aos meninos. Ele quer criar, mas mandam ele lutar. Ele quer desenhar, mas chamam de fraco. Ele quer sentir, mas dizem que "é coisa de menina". Então ele recalca.

 

E aí entra Freud: o recalque não desaparece — ele retorna. Em forma de sintoma, de agressividade, de ódio, de fuga para o inconsciente coletivo que acolhe, pela via distorcida, quem nunca foi escutado. O algoritmo acolhe os meninos como Jamie. Mas não com amor. Acolhe com discurso de ódio travestido de pertencimento. Como se dissesse: “Você tem razão em odiar quem não te entende.”

 

Kierkegaard, por sua vez, falava do desespero como a doença mortal — esse estado em que a alma se perde de si mesma. Jamie está nesse lugar. Um abismo de si. Uma angústia que não sabe nomear. Uma sensibilidade que foi desautorizada desde cedo. A arte, que poderia ser ponte com o mundo, vira vergonha. E a vergonha vira silêncio. Até que só resta a raiva. E a raiva ocupa o espaço da expressão.

 

Jamie não é um caso isolado. Ele é o reflexo de uma estrutura que exige que meninos sejam armaduras e nunca corpo. Que sintam tudo, mas não mostrem nada. Que sofram calados, até que explodam — e, quando explodem, são punidos por isso.

 

A verdade é que o pedido de socorro desses meninos nunca foi silencioso. Ele só foi ignorado porque o mundo adulto não sabe — ou não quer — aprender novos códigos. E aí, enquanto esperam ajuda do jeito "certo", Jamie já foi tragado pela ideologia, pela solidão, pela violência.

 

Se Sade nos alertava sobre os perigos da repressão e Freud nos mostrava os caminhos do inconsciente, Kierkegaard nos obriga a encarar a urgência da escuta: não aquela que espera palavras bonitas, mas a que se debruça sobre o caos e tenta entender a linguagem do desespero.

 

Talvez a redenção de meninos como Jamie esteja, justamente, em encontrar alguém que fale essa língua. Que saiba acolher sem exigir performance. Que consiga ler o desenho antes que ele vire faca.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 29/03/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras