![]() A virilidade ferida e o espelho partido
Talvez a mais trágica solidão do nosso tempo não seja a do homem isolado, mas a daquele que se une a outros homens para odiar o que ele não compreende em si mesmo. Os incels, como se autodenominam, são filhos de um século que perdeu seus deuses, suas certezas, e também seus modelos de virilidade. Restaram órfãos de um ideal masculino que lhes foi prometido, mas que nunca conseguiram habitar.
Eles se agrupam não por amor ou afinidade, mas por um ressentimento comum. Reúnem-se em torno da rejeição, do não-toque, da ausência de olhar — como se o mundo os tivesse esquecido numa sala sem janelas. O ódio que lançam às mulheres não é senão o eco do amor que não sabem sentir. Reclamam da feminilidade como se ela fosse um castigo. Mas, na verdade, estão diante da própria impotência: de desejar e não saber como. De se fazer desejável e não saber por onde começar.
Nietzsche — a quem tanto amei e também fugi — falava da vontade de potência, do além-do-homem, do espírito livre que supera a si mesmo. Mas o que vejo nesses homens não é vontade. É paralisia. É fixação num trauma que eles transformaram em identidade. Eles não se superam: se repetem. Estão presos num ciclo infantil de frustração e vingança. Fizeram de seu fracasso um totem. Um escudo contra o real.
Freud diria que se trata de uma libido sem objeto. Uma energia pulsional represada, que não encontra vias sublimes, nem satisfação simbólica. Por isso explode: em fantasias violentas, em vídeos, em massacres, em suicídios. São Eros e Tânatos entrelaçados num corpo que não conhece o toque. Não é só sexo que falta: falta o olhar de outro que diga “você é possível”.
Esses homens não odeiam as mulheres porque as conhecem. Odeiam porque nunca as encontraram de verdade. Viveram rodeados por imagens, por expectativas, por pornografia, por promessas culturais de dominação e conquista. Mas a mulher real — aquela que fala, que nega, que deseja outro — os assusta. É ela que derruba o castelo de suas fantasias.
O feminino, para eles, é um enigma que provoca raiva porque exige escuta, sensibilidade, presença. E eles não foram ensinados a nada disso. Foram ensinados a vencer. E estão perdendo.
Por isso não basta puni-los, nem silenciá-los. É preciso entender que o incel é um sintoma de uma cultura falida, de uma masculinidade que apodreceu por dentro. Eles são o espelho partido onde o homem moderno tenta se enxergar... e vê apenas os cacos.
Talvez, se ainda restar tempo, possamos ensinar esses homens a amar. Não a conquistar, não a dominar — mas a amar. A começar por si mesmos. Porque quem se despreza, inevitavelmente, desejará destruir tudo o que é vivo. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/03/2025
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