... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Entre incels e Nietzsche:

O eco do ressentimento

 

Às vezes, fico pensando o que Nietzsche escreveria se tivesse acesso aos fóruns onde jovens homens se reúnem pra odiar mulheres, desejar a morte de quem nunca os quis, e reclamar do mundo com a boca cheia de raiva. Talvez ele olhasse pra essa massa ressentida e dissesse: “aqui está o rebanho mais barulhento da modernidade”.

 

Os incels — esses “celibatários involuntários” — são, antes de tudo, sujeitos frustrados com sua própria impotência. Mas não falo só de sexo. É impotência de viver, de criar, de se reinventar. Eles não conseguem lidar com a própria mediocridade e, por isso, precisam culpar alguém. As mulheres viram o alvo mais fácil. Mas, no fundo, o ódio deles é contra a própria imagem refletida.

 

Nietzsche escreveu que o ressentido é aquele que, ao não conseguir agir sobre o mundo, transforma a sua fraqueza em moral. Ele diz que o bom é o fraco, o rejeitado, o feio. Que ser desprezado é ser especial. E começa a odiar quem é belo, livre, espontâneo — porque tudo isso o lembra do que ele nunca foi. E nunca será se continuar parado nesse ciclo de rancor.

 

E o pior é que eles acham que são rebeldes. Que estão lutando contra a “ditadura do feminismo”, como se fossem guerreiros do último bastião da masculinidade. Mas são só meninos perdidos, sem referência, sem afeto, agarrados à raiva como se fosse identidade. São ruínas tentando derrubar o mundo porque não sabem como levantar a si mesmos.

 

Nietzsche propunha o contrário disso: ele dizia que é preciso afirmar a vida. Que é preciso criar valores novos, dançar sobre os escombros, rir do abismo. Os incels não afirmam nada. Eles só negam. Só odeiam. Só consomem um ao outro nesse caldeirão de dor e medo e solidão. Eles são o que sobra quando o sujeito desiste de se tornar.

 

Mas a gente também não pode olhar pra isso com desprezo puro. Porque no fundo são jovens. São humanos. Estão com fome de sentido e não sabem onde procurar. O mundo mudou, os papéis tradicionais viraram pó, e ninguém ensinou esses caras a chorar, a amar, a perder, a recomeçar.

 

A extrema-direita chegou antes. Deu a eles um lugar pra pertencer. Um inimigo pra culpar. Uma bandeira pra vestir. E o algoritmo só fez o resto.

 

Talvez o nosso papel, enquanto gente que pensa, sente e age, seja tentar chegar antes da próxima explosão. Antes do próximo massacre. Antes do próximo suicídio.

 

Nietzsche dizia que é preciso ter o caos dentro de si pra parir uma estrela dançante. O problema é que muitos estão afogados no caos... e esqueceram onde fica o céu.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 28/03/2025
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