... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Talvez nunca tenhamos sido

 

Outro dia me perguntaram se eu achava que o Brasil tinha enlouquecido. Sorri com tristeza e disse que não — o Brasil apenas se permitiu ser o que sempre foi, sem culpa, sem maquiagem. A gente não se perdeu agora, a gente só tirou a máscara.

 

Não é que o Bolsonaro tenha iludido o povo. Não mesmo. Ele só deu permissão. Deu nome, deu forma, deu microfone para aquilo que morava calado, mas vivo, no coração de muita gente. Aquilo que a gente fingia não existir pra manter a ilusão de que éramos um povo bom, alegre, afetuoso. Mas talvez nunca tenhamos sido.

 

A escravidão acabou no papel, porque a pressão lá de fora ficou insustentável. A ditadura cedeu, não porque aprendeu a ser humana, mas porque foi forçada a recuar. Nós não superamos essas feridas — a gente só aprendeu a escondê-las com festa, com futebol, com novela. E com silêncio.

 

O que me dói, confesso, não é ver a ignorância gritar. É ver tanta gente aplaudir. É saber que muitos não foram enganados: foram representados. Que há quem se veja no ódio, quem se reconheça na violência, quem se sinta finalmente livre quando pode humilhar o outro sem ser corrigido.

 

A Constituição de 88 foi nosso sopro de esperança. Acreditamos que escrever direitos era o mesmo que vivê-los. Que legislar igualdade era o mesmo que praticá-la. Mas a alma de um povo não se transforma por decreto. Ela precisa caminhar. Precisa tropeçar, refletir, refazer o passo.

 

Confúcio já dizia — e eu, que gosto de escutar os antigos, entendo bem — que saber o caminho não é o mesmo que trilhá-lo. E é nessa travessia que estamos. Entre o que juramos ser e o que ainda precisamos nos tornar.

 

E eu sigo. Não por esperança cega, mas por amor lúcido. Porque mesmo sabendo de tudo isso, ainda acredito que tem gente acordando. Que tem olhos se abrindo. Que tem braços se estendendo, pra segurar quem caiu na beira da estrada.

 

Talvez a gente ainda não tenha sido. Mas pode vir a ser.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 25/03/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras