... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

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Há uma violência silenciosa, onde habita o amor.

 

Há uma violência silenciosa que habita o amor — e não me refiro ao amor romântico, mas àquele amor que nos despedaça por dentro, que exige a entrega total do ser, aquele que Bataille compreendeu como sacrifício. E eu, que acreditei na liberdade como fundamento da existência, encontro nesse sacrifício algo que escapa à razão, que excede a ética e roça o sagrado — não aquele dos altares, mas o sagrado profano do corpo exposto, do desejo que aniquila, da carne que exige rendição.

 

É nesse ponto, onde a linguagem falha e a experiência nos toma de assalto, que o feminino se revela como excesso. Não o excesso histérico que tanto nos impuseram, mas o excesso como potência de ruptura. O gozo, o pranto, o abandono: são revoltas contra a estrutura, são a nossa recusa em nos fecharmos nas formas seguras do cotidiano. Eu mesma fui levada — por amor, por escrita, por angústia — a tocar esse limiar, esse ponto onde a mulher se desfaz da forma social e emerge como criatura crua, nua de si.

 

Não há liberdade sem risco. E não há amor que não seja um campo de risco absoluto, como a morte o é. Bataille viu isso. Eu o vivi. A mulher que ama radicalmente já não pertence a si, mas tampouco pertence ao outro. Ela pertence a esse espaço de abismo entre dois corpos que se recusam a permanecer ilesos.

 

Talvez seja esse o verdadeiro escândalo: desejar e ainda assim pensar. Sofrer e ainda assim escrever. Ser devorada — e, mesmo assim, permanecer olhando nos olhos do mundo.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 24/03/2025
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