![]() O Valor de Quem Fica
Durante muito tempo, achei que amor era insistência. Que a prova maior do afeto estava em não desistir, mesmo quando tudo já pedia silêncio. Eu achava bonito sangrar por dentro e sorrir por fora. Ser a que compreende, a que espera, a que se dobra inteira para caber em espaços pequenos demais para seu tamanho.
Demorei para entender que o amor não deveria doer tanto.
Acreditava que quem ama grita, implora, se sacrifica. Como me ensinaram — ou talvez como me condicionaram —, amor era quase um martírio bem disfarçado. Bataille sussurraria que o desejo beira o abismo. E eu me jogava. Diariamente. Pensando que cair era prova de coragem. Que suportar era virtude. Que sangrar em silêncio era sinal de força.
Até que um dia... não me ouvi mais. Era só ruído por dentro. E o silêncio de fora já não me protegia — me matava.
Então calei. Não por desistência, mas por cansaço. Por lucidez.
É estranho o momento em que você percebe que ninguém vem. Ninguém volta. Ninguém ouve. E que a ausência, quando passa a ser constante, vira resposta. Que o amor que precisa ser provado o tempo todo já deixou de existir — se é que algum dia existiu.
Foi aí que o grito virou sussurro. Que o corpo que antes se curvava, agora se esticava inteiro. Que os olhos pararam de implorar e começaram a enxergar.
Hoje, não me interesso por quem não sabe me ver. Não gasto minha voz com ouvidos que escutam apenas a si mesmos. Não ofereço presença a quem me trata como ausência opcional. Galeano falaria de dignidade, e eu entendi: dignidade é saber a hora de ir embora da própria entrega.
E se Sade ainda me desafia nas noites em que desejo arde sem resposta, sei também que o amor não se mendiga. Nem o prazer. Nem o respeito. Há um limite para o sacrifício. E eu encontrei o meu.
Agora, fico onde sou vista sem esforço, onde sou escutada mesmo no silêncio. Não quero plateia. Quero presença. Não quero ser escolha tardia. Quero ser prioridade espontânea.
Afinal, meu valor não está na forma como me notam. Está na intensidade de quem, ao me encontrar, nunca mais deseja me perder. Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 23/03/2025
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