![]() Maré Cheia
Sempre me disseram que a vida é feita de ciclos, como as marés. Algumas vezes, tudo recua, deixando à mostra o que antes estava escondido sob as águas. Outras, a maré sobe, trazendo consigo novas correntes, novas possibilidades, novas verdades.
Passei muito tempo nadando contra a corrente, segurando o que escapava por entre os dedos. Insistia em manter por perto aquilo que já não me pertencia, por medo de perder, por medo do vazio. Mas a vida, sábia e insistente, tem seu próprio ritmo, e, mais cedo ou mais tarde, nos coloca diante do inevitável: certas coisas precisam ir para que outras possam chegar.
Descobri que há um alívio na perda quando ela acontece por alinhamento. Quando falamos nossa verdade e algo ou alguém se afasta, não é um castigo – é um ajuste. É como o mar limpando a areia, levando embora o que já não combina com a paisagem.
Demorei a entender que minha verdade não deveria ser moldada para caber na expectativa dos outros. Que segurar o que não me faz bem é o mesmo que tentar conter a maré com as mãos. Que algumas despedidas são, na verdade, libertações.
Hoje, vejo o mar à minha frente e respiro fundo. Não temo mais a mudança das marés. Sei que tudo que precisa ficar, ficará. E o que partir... nunca foi realmente meu.
Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/03/2025
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