... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

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O Espelho das Feridas

 

Camila disse que para conhecer nossas feridas, basta olhar para quem está ao nosso lado. No começo, achei estranho. Eu pensava que feridas eram aquelas marcas invisíveis dentro da gente, cicatrizes escondidas sob camadas de tempo e silêncio. Mas então, comecei a observar.

 

No café da manhã, meu colega de trabalho me irritou ao mastigar de boca aberta. Fiquei impaciente, sentindo um incômodo exagerado. Por quê? Talvez porque, desde pequeno, ouvi que boas maneiras definem uma pessoa. Não seria essa uma ferida disfarçada de etiqueta?

 

No trânsito, uma motorista hesitou em avançar no sinal verde. Bufei, bati impaciente no volante. Por que essa raiva toda? Talvez porque passei a vida inteira ouvindo que perder tempo é perder a vida. A pressa não seria, então, uma ferida aberta?

 

No fim do dia, uma mensagem curta de um amigo me soou fria. Fiquei remoendo a resposta. Não foi grosseria, não foi desinteresse, mas dentro de mim nasceu um incômodo, um eco de rejeição. Não seria essa a ferida da solidão mal resolvida?

 

A cada desconforto, comecei a ver um espelho. Minhas dores refletidas no outro. O que me irrita no mundo talvez seja um pedaço do que não resolvi em mim.

 

Camila tinha razão. As feridas não são só memórias esquecidas, mas respostas que damos ao que nos cerca. Cada desconforto é um lembrete silencioso de que algo dentro de nós pede atenção.

 

E talvez, só talvez, quando aprendermos a escutar essas feridas, elas parem de sangrar.

 

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 16/03/2025
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