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"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Freud, Bukowski e  Kierkegaard: 

sobre Esquecimento, Solidão e Morte.

 

 

O esquecimento dói. Quando as pessoas que amamos não lembram do nosso aniversário, não se fazem presentes nos momentos que julgamos importantes, nos perguntamos se nossa existência tem, de fato, algum impacto. Freud, Bukowski e Kierkegaard, cada um à sua maneira, nos oferecem respostas – ou pelo menos pistas – para entender essa angústia.

 

 

Freud e o Esquecimento: Memória, Afeto e Recalque

 

Para Freud, nada é esquecido por acaso. O que não é lembrado conscientemente pode estar reprimido, deslocado ou simplesmente desvalorizado dentro do inconsciente de alguém. Se uma pessoa que amamos se esquece do nosso aniversário, isso pode significar que nossa presença na vida dela não tem o mesmo peso que gostaríamos.

 

Mas e se o esquecimento não for sobre nós, e sim sobre o outro? Freud diria que as pessoas esquecem porque suas mentes estão ocupadas com outros desejos e conflitos. A lembrança do nosso aniversário pode não ser reprimida por falta de amor, mas por conta de outras preocupações.

 

No entanto, há outro aspecto freudiano a ser considerado: a nossa própria reação ao esquecimento. Quando nos doemos por não sermos lembrados, é porque esperávamos que fôssemos. Essa frustração nasce de um desejo de reconhecimento, algo que Freud associaria ao narcisismo primário – a necessidade de ser amado e valorizado como fomos nos primeiros anos de vida. Em outras palavras, sentir-se esquecido fere essa parte da psique que ainda anseia por atenção e validação.

 

Mas Freud também alertaria: a psique humana é complexa. Algumas pessoas podem esquecer porque, no fundo, querem esquecer, pois evitam encarar sentimentos ou relações que as fazem sentir vulneráveis.

 

Bukowski e a Indiferença da Vida: "O Que Você Esperava?"

 

Se Freud explica o esquecimento pelos processos do inconsciente, Bukowski, com sua visão crua da vida, provavelmente teria uma resposta bem mais direta: "E o que você esperava?"

 

Para Bukowski, o mundo é um lugar indiferente. As pessoas esquecem aniversários, não retornam mensagens e vivem presas em seus próprios universos de frustrações, trabalho e rotina. Ele via a vida como um jogo injusto, onde a solidão é a única certeza.

 

Se nos entristece não sermos lembrados, talvez, diria Bukowski, estejamos errados em esperar algo diferente. Criamos expectativas sobre os outros, esperando que demonstrem carinho e atenção na mesma medida que nós daríamos – mas as pessoas simplesmente não são assim.

 

Bukowski também diria que buscar significado no reconhecimento alheio é perda de tempo. Para ele, a vida é feita de momentos solitários, bebedeiras e poesia. Se alguém não lembra de você no seu aniversário, beba um trago, escreva um poema ou simplesmente ria da ironia de esperar algo de um mundo que nunca entrega o que prometeu.

 

E quanto à morte? Bukowski provavelmente riria da pergunta. "Depois que você morrer, por que se importaria se alguém lembrou?"

 

Kierkegaard e a Angústia da Existência: O Peso do Ser Esquecido

 

Se Freud explica o esquecimento pela psique e Bukowski o trata com desprezo, Kierkegaard o transforma em algo ainda mais profundo: um sintoma da angústia existencial.

 

O filósofo dinamarquês via a vida como uma sequência de escolhas e responsabilidades individuais. Ele acreditava que cada pessoa carrega sua própria angústia, pois somos os únicos responsáveis por dar sentido à nossa existência. Quando sentimos a dor de não sermos lembrados, o que realmente nos aflige não é o esquecimento em si, mas a constatação de que somos irrelevantes para os outros.

 

Para Kierkegaard, há dois caminhos diante dessa angústia: aceitá-la e encontrar nosso próprio significado ou desesperar-se e buscar validação no olhar alheio. Se sentimos medo de sermos esquecidos na morte, é porque ainda não aceitamos a solidão inerente à vida.

 

Diante da ausência de Deus (ou, ao menos, da falta de um sinal claro de Sua presença), Kierkegaard defendia que a fé e a aceitação da própria finitude eram os únicos caminhos para não cairmos no desespero. Em outras palavras: a dor de não ser lembrado pode ser um chamado para olhar para dentro e encontrar valor na própria existência, sem precisar que o mundo externo a valide.

 

Conclusão:

Entre o Desejo, a Indiferença e a Aceitação

 

Se Freud estivesse aqui, ele nos diria que nossa dor vem da infância, do desejo de ser amado e reconhecido. Se Bukowski estivesse ao nosso lado, ele daria de ombros, acenderia um cigarro e nos aconselharia a parar de esperar algo das pessoas. E se Kierkegaard pudesse nos responder, ele nos lembraria de que a vida é feita de angústia – e cabe a nós decidir se viveremos em busca de validação ou se aceitaremos a solidão como parte essencial da existência.

 

No fim, ser esquecido dói porque queremos ser lembrados. Mas será que, em vez de reclamar das ausências, não deveríamos aprender a valorizar aqueles que permanecem – mesmo que sejam poucos? Ou, quem sabe, aprender que nem sempre é sobre nós – e que às vezes o silêncio dos outros é apenas o reflexo do caos de suas próprias vidas?

 

Talvez nunca saibamos se alguém lembrará de nossa morte. Mas, se aceitarmos que nossa existência vale por si só, essa pergunta pode até perder a importância.

 

Dicas de livros sobre o tema...

 

Sigmund Freud

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da Vida Cotidiana. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Explica como lapsos de memória e esquecimentos podem estar ligados a processos inconscientes.

 

 

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Analisa o conflito entre os desejos humanos e as regras sociais que nos frustram.

 

Charles Bukowski

BUKOWSKI, Charles. O Amor é um Cão dos Diabos. Porto Alegre: L&PM, 2017.

Coletânea de poemas que refletem sua visão niilista e desapegada sobre a vida e as relações humanas.

 

BUKOWSKI, Charles. Factótum. Porto Alegre: L&PM, 2008.

Romance autobiográfico que explora a solidão, o trabalho e a busca por sentido em meio ao caos da vida.

 

Søren Kierkegaard

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

Explora o conceito do desespero como uma condição fundamental da existência humana.

 

KIERKEGAARD, Søren. Temor e Tremor. São Paulo: Vozes, 2014.

Discute a angústia existencial e a fé como resposta ao absurdo da vida.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 13/03/2025
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