... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A Violência Contra a Mulher como Rito de Dominação: Uma Análise Psicológica e Filosófica

Sobre o caso Vitória

Cajamar/SP

Março/25

 

Resumo

 

A violência de gênero, especialmente o feminicídio, não pode ser reduzida a casos isolados ou crimes passionais. Esse fenômeno tem raízes profundas na estrutura patriarcal da sociedade, onde a dominação masculina se manifesta tanto na violência explícita quanto na manipulação psicológica que mantém as mulheres em estado de vulnerabilidade. A partir de uma perspectiva interdisciplinar, este artigo explora como a neurociência,  e a filosofia explicam os mecanismos por trás dessa violência sistemática. Com base em autoras nacionais como Heleieth Saffioti, Rita Segato e Marília Moschkovich, bem como pesquisas de neurociência e psiquiatria no Brasil, buscamos entender como a sociedade perpetua esse ciclo e como enfrentá-lo.

 

1. Introdução

 

O feminicídio não é um ato isolado, mas a consequência final de um sistema de opressão que coloca o corpo feminino sob posse masculina. No Brasil, onde a cada sete horas uma mulher é assassinada (IPEA, 2023), a violência de gênero se manifesta em diferentes níveis, desde o controle psicológico até a eliminação física.

 

Filósofas e sociólogas como Heleieth Saffioti (2004) e Rita Segato (2016) demonstram que a violência contra a mulher não é apenas individual, mas estruturante da ordem patriarcal. Aliado a isso, estudos da neurociência (Landeira-Fernandez, 2019) e da psiquiatria (Brasil, 2022) evidenciam os impactos profundos do trauma na psique feminina.

 

Este artigo busca entender o feminicídio não como um "crime passional", mas como um ritual de dominação masculina, sustentado por mecanismos psicológicos e sociais que garantem a submissão da mulher.

 

2. O Impacto Neuropsiquiátrico da Violência de Gênero

 

A neurociência e a psiquiatria têm demonstrado que a exposição crônica à violência afeta profundamente o cérebro feminino. Mulheres que vivem sob ameaça constante apresentam padrões cerebrais semelhantes aos de soldados em guerra (Landeira-Fernandez, 2019).

 

2.1. O Colapso do Sistema Nervoso

 

O estresse tóxico gerado por relações abusivas ativa de forma excessiva a amígdala cerebral, a área responsável pelo medo e pelas respostas de luta ou fuga. Esse hiperativamento pode levar a sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade crônica e depressão severa (Brasil, 2022).

 

Além disso, o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e pela tomada de decisões, sofre impacto, prejudicando a capacidade da mulher de perceber saídas para o ciclo da violência (Herman, 1992). Isso explica por que muitas vítimas não conseguem deixar seus agressores: o trauma modifica sua resposta neurológica e emocional, criando um estado de paralisia psicológica.

 

3. A Psicologia da Dominação Masculina

 

Desde a infância, a sociedade ensina que a masculinidade está associada ao domínio e à agressividade, enquanto a feminilidade é ligada à submissão e ao cuidado. Heleieth Saffioti (2004) explica que a violência de gênero é um mecanismo de controle que naturaliza a desigualdade entre homens e mulheres.

 

3.1. A Violência como Rito de Masculinidade

 

Rita Segato (2016) argumenta que o feminicídio não é apenas um ato de ódio, mas um ritual de reafirmação da masculinidade dentro de um sistema patriarcal. O homem que mata uma mulher está enviando uma mensagem à sociedade: ele reafirma seu domínio sobre o corpo feminino.

 

Esse processo se manifesta especialmente em casos onde a mulher desafia a hierarquia masculina – seja terminando um relacionamento, seja conquistando autonomia financeira. Em resposta, muitos homens recorrem à violência extrema para "punir" essa transgressão.

 

4. A Filosofia Feminista Brasileira e a Violência de Gênero

 

A filosofia feminista brasileira tem produzido reflexões fundamentais sobre o papel da violência na estruturação das relações de gênero. Autoras como Marília Moschkovich (2020) destacam como a sociedade normaliza a brutalidade contra as mulheres, tratando o feminicídio como eventos isolados, e não como parte de um sistema maior.

 

Judith Butler (1990), ao desenvolver a teoria da performatividade de gênero, mostra como os papéis de homem e mulher são reforçados por meio da violência simbólica e física. O feminicídio, nesse contexto, não é um desvio da norma, mas parte essencial dela.

 

5. Relações Heterossexuais como Estruturas de Poder

 

Pesquisas indicam que uma parte significativa das traições masculinas ocorre com outros homens ou travestis (Guimarães, 2018). No entanto, são as mulheres que sofrem as consequências emocionais, sociais e até físicas desse jogo de poder.

 

A relação heterossexual, muitas vezes, não se baseia na reciprocidade, mas no controle e na conveniência masculina. Quando esse controle é ameaçado, a resposta pode vir em forma de abuso psicológico, físico ou mesmo feminicídio.

 

6. Feminicídio: Crime ou Ritual de Dominação?

 

O feminicídio segue padrões históricos e sociais. O ato de assassinar uma mulher é frequentemente acompanhado de tortura, exposição pública do corpo e destruição de sua identidade, como o corte de cabelos ou mutilação (Segato, 2016). Esses atos não são aleatórios – são mensagens sociais de reafirmação do domínio masculino.

 

Heleieth Saffioti (2004) enfatiza que, enquanto a violência contra a mulher for tratada como exceção e não como regra estrutural, a sociedade continuará perpetuando a misoginia e normalizando o assassinato de mulheres.

 

7. Conclusão: O Oito de Março e a Luta Contra a Violência de Gênero

 

O Dia Internacional da Mulher não é sobre flores ou homenagens vazias, mas sobre a luta para que mulheres não sejam assassinadas simplesmente por existirem. O Brasil precisa avançar em políticas públicas de combate ao feminicídio, mas também deve enfrentar a raiz do problema: a cultura patriarcal que normaliza a posse e o controle sobre a mulher.

 

A mudança exige não apenas leis, mas também uma transformação profunda na educação, na mídia e nas estruturas sociais que perpetuam o machismo. Só assim será possível romper o ciclo de violência e garantir que a próxima geração de mulheres não precise viver com medo.

 

Referências

 

Brasil. (2022). Relatório Nacional sobre Violência de Gênero. Brasília: Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

 

Butler, J. (1990). Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge.

 

Guimarães, L. (2018). A Masculinidade no Armário: Traições, Segredos e Poder nas Relações de Gênero no Brasil. São Paulo: Boitempo.

 

Herman, J. (1992). Trauma and Recovery. New York: Basic Books.

 

IPEA. (2023). Atlas da Violência: Feminicídios no Brasil. Brasília: IPEA.

 

Landeira-Fernandez, J. (2019). "O impacto do trauma na neurofisiologia do medo". Revista Brasileira de Psiquiatria, 41(2), 150-167.

 

Moschkovich, M. (2020). Feminismo e Filosofia no Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: PUC-Rio.

 

Saffioti, H. (2004). Gênero, Patriarcado e Violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.

 

Segato, R. (2016). La Guerra contra las Mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 09/03/2025
Alterado em 09/03/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Tela de Claude Monet
Site do Escritor criado por Recanto das Letras