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A Guerra na Ucrânia e a Ilusão da Supremacia Ocidental

02/03/25.

 

Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, a diplomacia brasileira, alertou que o único caminho viável para evitar a destruição da Ucrânia seria a negociação. A geopolítica não se faz com ilusões, mas com a compreensão da realidade histórica e estratégica. A Ucrânia e a Rússia compartilham laços profundos – culturais, linguísticos e históricos. Ignorar essa relação e transformar a Ucrânia em um mero instrumento da política externa ocidental foi um erro fatal.

 

Mas Zelensky não quis ouvir. Preferiu acreditar no mito de que o Ocidente sustentaria sua guerra indefinidamente, sem perceber que os Estados Unidos não travam guerras por princípios, mas por lucro. Desde o primeiro dia, a Ucrânia foi apenas mais uma peça no jogo de contenção da Rússia, um jogo que já havia sido jogado antes, no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Líbia. Agora, com Donald Trump deixando claro que não jogará mais dinheiro na fogueira ucraniana, a Europa se vê forçada a arcar com os custos de um conflito que nunca teve chance de vencer.

 

O Padrão Histórico de Guerras Periféricas

 

O erro ucraniano não foi apenas confiar na OTAN, mas repetir o erro de tantas outras nações que serviram de bucha de canhão para os interesses geopolíticos do Ocidente. O Vietnã acreditou na promessa americana de independência e quase foi varrido do mapa. O Afeganistão foi transformado em um campo de batalha da Guerra Fria e, décadas depois, os EUA fugiram de Cabul da mesma forma que fugiram de Saigon. O Iraque foi vendido como um projeto de "democracia" e terminou despedaçado, com sua população jogada na miséria e seu petróleo saqueado. A Líbia, antes um dos países mais desenvolvidos da África, hoje é um território sem governo onde se vende escravos em mercados a céu aberto.

 

A Ucrânia seguiu esse mesmo roteiro, mas com uma diferença crucial: enfrentou um inimigo que não poderia ser derrotado. A Rússia não é um Estado falido, não é um regime improvisado sustentado artificialmente. É uma potência nuclear, econômica e territorialmente autossuficiente. O Ocidente acreditou que poderia isolá-la com sanções, confiscar seus bens no exterior, financiar um exército de mercenários e simplesmente esperar que Moscou desmoronasse. O que aconteceu foi o oposto: a Rússia emergiu mais forte, reforçando suas alianças com a China, a Índia e o mundo árabe, consolidando o BRICS como alternativa real ao eixo atlântico.

 

O Donbass e a Hipocrisia da OTAN

 

O que nunca foi dito de forma honesta é que a guerra não começou em 2022, mas em 2014, quando o governo ucraniano iniciou uma ofensiva contra a população do Donbass, de maioria russa. Durante oito anos, civis foram bombardeados, proibidos de falar sua língua e perseguidos por um governo que baniu partidos de oposição e flertou abertamente com grupos neonazistas. Mas a "democracia ocidental" nada disse. As mesmas nações que hoje choram pelos ucranianos nunca ergueram a voz contra os massacres no Donbass, assim como ignoram o genocídio em Gaza. O que importa não são os direitos humanos, mas os interesses estratégicos.

 

A verdade é que a OTAN sempre quis esta guerra. Não para salvar a Ucrânia, mas para enfraquecer a Rússia. A ideia era transformar o país em um novo Afeganistão, um pântano onde Moscou se afundaria em um conflito sem fim. Mas não foi isso que aconteceu. A Rússia adaptou sua economia, reformulou sua logística militar e consolidou seus avanços. Hoje, a Ucrânia está esgotada, e a Europa enfrenta a perspectiva de uma crise econômica sem precedentes.

 

A Derrota do Modelo Colonialista

 

O que essa guerra prova é que o velho modelo colonialista não funciona mais. Durante séculos, o Ocidente manteve seu domínio explorando economias periféricas, desestabilizando governos e promovendo guerras para garantir seu controle sobre os mercados e recursos naturais. Mas agora, a maré está mudando. Os EUA não conseguem mais sustentar seus impérios militares, a Europa está fragmentada e a ascensão da China e dos BRICS ameaça o monopólio ocidental sobre o comércio global.

 

A questão que poucos querem enfrentar é: o que o mundo realmente aprendeu com esse conflito? Nada. O Ocidente continua acreditando que pode impor sua vontade pela força. Continua tratando países soberanos como peças descartáveis. Continua ignorando a história e subestimando seus adversários. Mas cada guerra que perde, cada crise econômica que enfrenta, cada aliança que se desfaz, aproxima o mundo de uma nova ordem global.

 

O Futuro: Um Mundo Multipolar

 

O tempo dos impérios unilaterais está acabando. A Rússia venceu esta guerra não apenas no campo de batalha, mas na geopolítica global. Os BRICS surgem como alternativa real, oferecendo um modelo de cooperação sem imposição de valores coloniais. A China se fortalece como potência econômica, e até mesmo países historicamente alinhados aos EUA começam a questionar sua lealdade.

 

A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito regional, mas um marco da transição global. Os Estados Unidos e a União Europeia podem continuar se agarrando à sua ilusão de hegemonia, mas a realidade é clara: o mundo já não gira em torno do Ocidente. E, como sempre, aqueles que ignoram a história estão condenados a repeti-la – e a perder.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 08/03/2025
Alterado em 08/03/2025
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