... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


O Amor e a Covardia

 

Ele vem. Sempre vem.

Bate à porta com o ímpeto de quem já sabe o caminho, de quem não precisa de convites. Atravessa a soleira sem hesitação, sem perguntas, sem hesitar sequer um segundo diante das minhas tatuagens, dos meus livros empilhados no chão, do quadro na parede que nunca se deu ao trabalho de reconhecer. Ele entra e me toma com pressa, como se o tempo que passamos juntos fosse apenas uma dança entre os lençóis, uma urgência de corpos, um teatro de gemidos ensaiados.

 

E eu deixo. Deixo porque há noites em que o desejo se sobrepõe à razão, em que a carne pede, e não há argumentos que sustentem a recusa. Deixo porque sei que, ao fim, ele sairá como sempre veio: sem saber nada sobre mim, sem se preocupar com o que me mantém acordada às três da manhã, sem imaginar que há mais em mim do que esse corpo que ele percorre sem cautela.

 

Ele não sabe que assino Monet nos meus textos. Nunca perguntou por quê. Nunca se interessou pelos contrastes entre Bukowski e Nietzsche na minha cabeceira, pela dualidade de um pensamento que oscila entre o caos e a contemplação. Não quis entender o que há dentro das gavetas da minha escrivaninha, o porquê dos remédios, das anotações dispersas, das noites em que a melancolia pesa tanto quanto o desejo.

 

Ele me ama? Talvez, no único jeito que conhece: superficial, previsível, um amor domesticado que cabe em jantares, vinhos e viagens a dois. Ele acha que isso é romantismo. Eu acho isso entediante.

 

O amor, para mim, precisa ser corajoso. Precisa se jogar nos abismos do outro, atravessar suas tempestades sem medo de se molhar. Amor não se limita à conveniência do toque, não se alimenta apenas do prazer. Amor é uma fome que não se sacia apenas com corpos.

 

Mas ele nunca mergulhou. Ficou à beira, temendo a profundidade.

 

E quem não mergulha, meu bem, só recebe migalhas.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 08/03/2025
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