... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

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O Fio Invisível da Liberdade

 

Era 8 de março e as ruas estavam vivas. Mulheres marchavam, algumas de punhos erguidos, outras segurando cartazes, todas carregando no olhar um misto de orgulho e exaustão. Entre discursos e aplausos, uma jovem parou na esquina e olhou para o céu. Pensava na liberdade, mas não na que se mede em leis ou decretos.

 

O que é ser livre?

 

Hannah Arendt teria dito que a liberdade não é simplesmente a ausência de correntes, mas a capacidade de agir no espaço público, de transformar o mundo com palavras e ações. Já Michel Foucault, com seu olhar afiado para os sistemas de poder, lembraria que a opressão nem sempre se vê – às vezes, ela se esconde nos discursos, nas normas sociais, nos sorrisos condescendentes que dizem "você pode", mas impõem limites invisíveis.

 

A jovem respirou fundo. Liberdade não era apenas poder trabalhar, votar, vestir o que quisesse. Era algo mais sutil e, talvez, mais perigoso: a liberdade de pensar sem medo, de existir sem precisar se explicar. Mas como ser livre em um mundo que constantemente diz às mulheres como devem ser, o que devem desejar, até como devem lutar?

 

Olhou ao redor e percebeu que a resposta estava ali, naquelas mulheres caminhando, discutindo, vivendo. Para Arendt, a ação era a essência da política, e nada era mais revolucionário do que mulheres decidindo sua própria história. Para Foucault, o poder não era um bloco monolítico, mas uma rede em constante transformação – e ali estava a prova.

 

A jovem sorriu. A liberdade, afinal, não era uma dádiva, mas uma prática diária. Estava nos pequenos gestos: na mulher que recusava o silêncio, na outra que ousava sonhar, naquelas que se apoiavam sem se conhecer.

 

Era 8 de março, mas poderia ser qualquer dia. A luta continuava, não por um ideal distante, mas pela simples e profunda escolha de ser.

 

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 08/03/2025
Alterado em 08/03/2025
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