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Textos

"Ilusão do Conforto" e a Crítica à Inautenticidade

Reescrita com Referências Filosóficas

 

 

A narrativa de João, um profissional aprisionado pela rotina e cego às possibilidades, ecoa questões centrais da filosofia, como a tensão entre segurança e liberdade, a alienação no trabalho e a busca por autenticidade. Ao analisar sua trajetória sob perspectivas filosóficas, revela-se uma crítica à inércia existencial e à ilusão de controle no mundo corporativo.

 

1. Existencialismo: A Má-Fé e a Fuga da Liberdade (Sartre e Kierkegaard) - João personifica a “má-fé” descrita por Sartre em *O Ser e o Nada*: ele nega sua liberdade ao escolher a segurança da rotina, evitando a angústia de criar seu próprio caminho. Sua justificativa — “sempre foi assim” — é uma racionalização para escapar da responsabilidade de agir. Kierkegaard, em *O Conceito de Angústia*, complementaria que o medo do novo paralisa João, pois a angústia diante do possível é inerente à liberdade. Ele prefere a “doença mortal” da repetição à coragem de se reinventar, tornando-se um estranho para si mesmo.

 

2. Fenomenologia: O “Ser-no-Mundo” Automatizado (Heidegger) - Heidegger, em Ser e Tempo, descreve a existência autêntica como um “ser-para-a-morte”, consciente de sua finitude. João, no entanto, vive no modo do das Man (o “eles”), absorvido pelas normas impessoais da empresa. Sua rotina é um “cuidado inautêntico”: ele age por hábito, sem questionar. O acidente funciona como um evento desvelador, rompendo sua cegueira e revelando a fragilidade de sua pseudoestabilidade. Assim, ele confronta a facticidade de sua existência e a urgência de ressignificá-la.

 

3. Epistemologia Socrática: A Ignorância da Experiência - A experiência de João ilustra a ironia socrática: quanto mais ele acredita dominar seu ambiente, menos enxerga suas falhas. Como Sócrates alerta na Apologia,  “só sei que nada sei” — a verdadeira sabedoria está em reconhecer os limites do conhecimento. João só percebe sua ignorância após o erro, quando a ilusão de controle se desfaz. A empresa, que ele julgava conhecer, revela-se um sistema complexo e mutável, exigindo humildade intelectual para evoluir.

 

4. Estoicismo: O Medo do Externo e a Ilusão do Controle (Epicteto e Sêneca) - O estoicismo, como exposto por Epicteto em Manual, ensina que a felicidade reside no que controlamos (nossas ações) e não no externo (estabilidade, julgamento alheio). João, porém, inverte essa lógica: teme perder o emprego e a aprovação social, fatores fora de seu domínio. Sêneca, em Cartas a Lucílio, diria que sua acomodação é fruto do medo da fortuna (Fortuna), que o impede de abraçar a virtus (coragem). A lição estoica seria: só ao aceitar a incerteza, ele se liberta.

 

5. Marxismo: Alienação e a Coisificação no Trabalho - Para Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, o trabalho alienado transforma o sujeito em uma extensão da máquina capitalista. João, após 20 anos na mesma empresa, tornou-se “parte do problema”: sua crítica foi suprimida, e sua identidade reduzida à função que ocupa. A “cegueira” para os erros da empresa simboliza a alienação — ele não mais se reconhece no que produz, apenas reproduz. A mudança final de João, ao questionar processos, é um ato de resistência contra essa coisificação.

 

6. Nietzsche: A Vontade de Potência e a Superação - Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, condenaria João por sucumbir ao “espírito de rebanho”. Sua acomodação nega a vontade de potência — o impulso de transcender limites. Ao temer o desconhecido, João escolhe a “morte em vida” da rotina, em vez de criar novos valores. O acidente, porém, é um chamado ao eterno retorno: ele deve amar sua existência a ponto de desejá-la repetidamente, o que só é possível se viver autenticamente.

 

7. Virtude Ética: A Coragem como Meio-Termo (Aristóteles) - Aristóteles, na Ética a Nicômaco, define a coragem como a virtude entre a covardia e a temeridade. João inicialmente falha nesse equilíbrio: sua aversão ao risco é covardia, mas após o acidente, busca a prudência (phronesis) ao revisar processos. A empresa, como uma polis, só evolui se seus membros cultivarem virtudes — e João, ao liderar a equipe com olhar crítico, pratica a justiça (agir pelo bem comum) e a sabedoria prática.

 

Conclusão: Entre a Segurança e o Crescimento.

 

A história de João é uma parábola sobre a ilusão de que a experiência garante domínio. Filosoficamente, revela que o conforto é uma armadilha quando suprime a liberdade (Sartre), a crítica (Marx) e a reinvenção (Nietzsche). As referências clássicas e contemporâneas convergem em um imperativo: viver autenticamente exige coragem para questionar, humildade para reconhecer a ignorância e resiliência para aceitar a incerteza. No mundo corporativo e além, a verdadeira sabedoria não está em repetir, mas em ousar reexistir.

 

Referêncial Teórico:

- SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada.

- HEIDEGGER, M. Ser e Tempo.

- MARX, K. Manuscritos Econômico-Filosóficos.

- NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra.

- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

- EPICTETO. Manual.

- KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia.

 

O texto integra conceitos para mostrar como a filosofia não só interpreta a condição humana, mas também oferece caminhos para transformá-la — inclusive no ambiente de trabalho.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 01/03/2025
Alterado em 01/03/2025
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