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"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


Conexão, Intimidade e Poder:

O Ritual dos Corpos e a Construção dos Laços

08º artigo do curso de Filosófia, ano 2024.

 

Introdução:

 

Nos dias de hoje, onde a velocidade das interações e a superficialidade das conexões parecem imperar, um simples abraço prolongado ou um beijo demorado podem ser atos revolucionários. Não se trata apenas de gestos banais de afeto, mas de práticas que reforçam a conexão entre os corpos e as almas. A ciência nos diz que essas interações liberam oxitocina, o hormônio da ligação e da confiança. Mas o que os grandes pensadores nos dizem sobre isso? Como o desejo, o prazer e o poder moldam os relacionamentos humanos? Neste artigo, vamos explorar essa questão à luz das ideias de Marquês de Sade, Georges Bataille e Michel Foucault.

 

 

O Corpo Como Espaço de Poder e Ligação

Para Michel Foucault, a sociedade é atravessada por relações de poder que disciplinam nossos corpos e nossos desejos. No seu estudo sobre a sexualidade, Foucault argumenta que o prazer sempre foi um território de controle, regulamentado por instituições como a família, a religião e o Estado. Mas, ao mesmo tempo, é no corpo e no desejo que encontramos uma forma de resistência a esse controle.

Se pensarmos nas pequenas práticas diárias de um casal – dormir juntos, abraçar longamente, beijar intensamente, se entregar ao prazer –, podemos vê-las como rituais que transcendem a mera biologia. São formas de reafirmação do vínculo e resistência à alienação imposta pela rotina e pelo mundo exterior. Quando um casal decide deliberadamente reforçar sua conexão com gestos concretos e prolongados, está exercendo um poder sobre sua própria narrativa, escapando da fragmentação imposta pela sociedade contemporânea.

 

O Prazer Como Transgressão e Conhecimento

Se Foucault nos fala do prazer como um campo de poder, Georges Bataille nos leva ao prazer como transgressão. Em sua obra O Erotismo, ele argumenta que o desejo humano não pode ser reduzido apenas à reprodução ou à biologia. O prazer, para Bataille, está ligado ao sagrado e ao proibido, àquilo que nos tira da normalidade e nos coloca em um estado de fusão com o outro.

Quando um casal negligencia sua vida sexual, quando transforma o sexo em uma obrigação mecânica ou deixa que ele desapareça da relação, está perdendo essa dimensão transgressora e transformadora do desejo. É no encontro dos corpos, na entrega sem reservas, que a intimidade se fortalece e a relação se renova. Como Bataille diria, o prazer verdadeiro não está apenas no ato físico, mas na entrega total – emocional e corporal – que desafia os limites do eu e do outro.

A rotina, a pressa e a tecnologia criam barreiras invisíveis que enfraquecem essa entrega. Deixar o celular longe na hora da intimidade, priorizar momentos juntos, criar rituais de toque e presença não são apenas hábitos saudáveis – são estratégias de resistência contra um mundo que nos empurra para o distanciamento e o vazio.

 

O Desejo Como Exercício de Liberdade

Mas se há um pensador que levou o prazer ao extremo da filosofia, esse foi Marquês de Sade. Para ele, o desejo não deveria ser reprimido, mas levado ao seu limite máximo. Em sua visão libertina e provocadora, o prazer e a liberdade andam de mãos dadas, e negar os impulsos do corpo é uma forma de aprisionamento.

Obviamente, Sade leva essa ideia a extremos que desafiam qualquer moralidade tradicional, mas podemos extrair dele um ponto essencial: um casal que não se permite explorar o prazer está, de certa forma, se aprisionando em um modelo de relação empobrecido. O desejo não deve ser visto como um tabu ou um detalhe secundário na dinâmica de um relacionamento, mas como um pilar central que sustenta a ligação entre duas pessoas.

Se um relacionamento esfria porque o desejo se apaga, isso não é um problema individual, mas uma questão estrutural que exige consciência e ação. Como Sade talvez sugerisse, não basta manter um relacionamento apenas pelo conforto ou pelo hábito – é preciso que ele seja fonte de prazer e experimentação contínua.

 

Confiança e Escolha: A Base de Tudo

Seja em Foucault, Bataille ou Sade, uma coisa fica clara: o prazer, o desejo e o vínculo são construções sociais e individuais que exigem intencionalidade. Um casal não se sustenta apenas por obrigação ou conveniência. O que os mantém juntos são as escolhas diárias de confiança, intimidade e conexão.

Confiar no outro, entregar-se ao prazer, manter rituais de presença e toque não são detalhes insignificantes. São, na verdade, os fundamentos de qualquer relação autêntica.

E como manter essa chama acesa? Com escolhas conscientes:

  • Abraços de mais de 14 segundos, porque o corpo precisa sentir o outro como um território seguro.
  • Beijos de mais de 6 segundos, porque o desejo precisa ser alimentado e não apenas presumido.
  • Sexo presente e intencional, porque é ele que diferencia um casal de simples companheiros de quarto.
  • Conversas sem distrações, rituais de conexão, confiança plena, porque um relacionamento não sobrevive sem presença real.

No fim das contas, não é ciência de foguete. É um exercício de consciência e prática.

Se um casal não organiza sua relação, ele vai se perder. Mas se cultiva esses pequenos rituais, ele se encontra, se fortalece e se reinventa constantemente.

 

Conclusão: Pequenos Rituais, Grandes Transformações

Os grandes pensadores do desejo e do poder nos ensinam que o prazer e a conexão não são meros aspectos secundários da vida. Eles são centrais para a construção do que somos e da forma como nos relacionamos.

Seja na perspectiva do poder de Foucault, da transgressão de Bataille ou da liberdade extrema de Sade, uma coisa é certa: relacionamentos saudáveis são aqueles onde o desejo, a intimidade e a confiança são trabalhados de forma consciente e contínua.

 

Referências Bibliográficas

  1. Foucault, Michel.

    • História da Sexualidade: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
      → Nesta obra, Foucault explora como o discurso sobre a sexualidade é historicamente construído e regulado, mostrando como o poder molda os desejos e os corpos.

    • O Corpo Utopístico e Outros Diálogos. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
      → Foucault reflete sobre o corpo como um campo de significação e resistência dentro das relações de poder.

  2. Bataille, Georges.

    • O Erotismo. São Paulo: Editora Autêntica, 2017.
      → Um dos textos fundamentais sobre a relação entre erotismo, sacralidade e transgressão. Bataille argumenta que o desejo não é apenas biológico, mas uma força que desafia os limites da normalidade social.

    • A Experiência Interior. São Paulo: Editora Ática, 1998.
      → Uma abordagem filosófica sobre os limites da consciência e do desejo, questionando a experiência do prazer para além da razão.

  3. Sade, Marquês de.

    • Justine ou os Infortúnios da Virtude. São Paulo: L&PM, 2015.
      → Um dos romances mais conhecidos do Marquês de Sade, onde ele explora a liberdade absoluta do desejo e a recusa da moral convencional.

    • Os 120 Dias de Sodoma. São Paulo: Iluminuras, 2004.
      → Embora extremo, este texto discute o prazer sem limites e questiona os tabus impostos à sexualidade.

  4. Giddens, Anthony.

    • A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1993.
      → Giddens analisa como o amor e o desejo mudaram na modernidade, abordando a construção da intimidade como um espaço de negociação e liberdade.
  5. Bauman, Zygmunt.

    • Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
      → Um estudo sobre como a modernidade líquida enfraquece os vínculos e como casais precisam criar estratégias para manter relações autênticas e duradouras.
  6. Lacan, Jacques.

    • O Seminário, Livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
      → Lacan explora o desejo e a intimidade dentro das relações interpessoais, destacando como o desejo do outro é estruturado simbolicamente.
  7. Deleuze, Gilles & Guattari, Félix.

    • Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1995.
      → No conceito de “corpos sem órgãos”, Deleuze e Guattari discutem o desejo como fluxo e potência, rompendo com a ideia de uma sexualidade controlada e normatizada.
  8. Nietzsche, Friedrich.

    • Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
      → Nietzsche questiona a moralidade tradicional e sugere que o desejo e o instinto são forças vitais que devem ser vividas plenamente.

Complementos e Leituras Relacionadas

  • Fromm, Erich. A Arte de Amar. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1956.
    → Um estudo psicológico e filosófico sobre a construção do amor como um ato ativo e disciplinado.

  • Freud, Sigmund. Os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
    → Clássico da psicanálise que explora a origem do desejo e sua relação com a construção da subjetividade.

  • Han, Byung-Chul. A Agonia do Eros. Lisboa: Relógio d’Água, 2014.
    → Uma crítica à forma como a sociedade contemporânea esvaziou a profundidade do desejo e da intimidade.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 09/02/2025
Alterado em 09/02/2025
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