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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Textos


A noite me arrancou do sono com um arrepio. Havia alguém parado ao lado da cama. Era um menino... olhos azuis profundos, cílios longos, cabelos quase ruivos. Segurava uma faca com a naturalidade de quem segura um brinquedo. Não falou nada. Apenas me olhou... um sorriso estranho nos lábios, ternura e terror misturados.

 

Eu também não disse nada. Puxei o cobertor até cobrir a cabeça, como se o tecido fosse uma fortaleza, e me deixei adormecer outra vez.

 

Na manhã seguinte, a cena queimava em minha memória. A dor de cabeça latejava bem entre os olhos — lugar que os supersticiosos chamam de Terceiro Olho. O médico falou em ansiedade, estresse, sobrecarga emocional. Saí com receitas para dor e para dormir.

 

Do lado de fora, o entardecer me arrastou até uma igreja. Sentei no último banco e chorei sem ruído. O padre se aproximou. Quando lhe contei o que tinha visto, ele não duvidou. Disse apenas: “Não é doença. É batalha espiritual. Há sombras que tentam te possuir, mas também há anjos lutando por ti. E por isso vês o que outros não veem.”

 

Três dias depois, acordei de novo com a sensação de vigília. Ele estava lá. O mesmo menino... mas maior, mais denso, os olhos pesados de tristeza. A faca ainda em mãos, mas agora manchada de sangue. Os lábios se mexiam, como se tentasse pronunciar palavras que não alcançavam o ar.

 

Juntei coragem:

 

— O que faz aqui, filho? Por que me olha enquanto durmo?

 

Os olhos dele se suavizaram. Senti aceitação, quase alívio. Ele ergueu o dedo e apontou para cima.

 

— Não estou olhando para você. Estou protegendo você... do homem no teto.

 

Segui seu gesto. E vi. Um corpo pregado no teto, envolto em manto azul-escuro. Olhos sem cor, pele enrugada e marcada por cicatrizes profundas. O sorriso era um rasgo macabro. Tentei desviar, mas fiquei presa naquela visão.

 

Um vento gelado tocou meu rosto. A mão do menino descansou sobre minha pele, puxando meu olhar de volta para ele.

 

— Dorme... cobre-se e não olhe para cima. Eu estarei aqui.

 

E adormeci.

 

De manhã, o teto estava vazio. Apenas o ventilador rodava. No chão, uma pena branca. Sorri nervosa. Mas no espelho, havia sangue escorrido em meu rosto. Não era sonho.

 

Passei a viver na sala, em cochilos breves, até decidir mudar de casa. Mas nunca me abandona a lembrança: aquele menino... e aquele homem.

 

Na nova casa, uma borboleta vermelha pousou sobre mim. As asas traziam círculos azuis, como olhos. Paralisei. E ouvi:

 

— Você me chamou de filho... Obrigado por me reconhecer. O homem no teto era meu pai, aquele que te possuiu anos atrás. Ele jurou te atormentar. Mas agora eu o caço, e ele foge de mim. Quando você o encarou sem medo, libertou a mim... e a si mesma.

 

Despertei no sofá, o corpo pesado. O relógio marcava 23:23. Minha mãe ligava aflita, dizia estar chamando desde a manhã. O celular estava em minhas mãos. A câmera gravara sozinha. No vídeo, o menino estava sentado no meu colo, sorrindo, contando histórias que não consegui ouvir. Então o aparelho caiu e tudo escureceu.

 

Guardei o segredo. Até perder o vídeo e todas as imagens, numa queda do sistema. Mas já não precisava mais delas.

 

Hoje, quando uma borboleta vermelha com olhos azuis pousa em minha janela, sei que ele ainda está aqui. Guardando meu sono.

Monet Carmo
Enviado por Monet Carmo em 14/05/2023
Alterado em 07/09/2025
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