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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Meu Diário
10/10/2026 13h37
O primeiro Círio de Nsra de Nazaré, sem minha Maria de Lourdes...

Mãe, este é o primeiro Círio sem ti. Eu vejo a imagem de Nossa Senhora com o filho nos braços e fico olhando mais do que consigo rezar. Este ano, ser filha está doendo de um jeito que eu ainda não sei explicar.

 

Desde que tu foste embora, tenho vivido as primeiras tantas coisas sem ti. O primeiro Dia das Mães, o teu aniversário, agora o Círio... E os dias comuns, que ninguém marca no calendário, mas que também me pegam desprevenida. A vontade de te contar alguma coisa. Uma lembrança que aparece no meio do trabalho. Aquele instante em que eu esqueço, por uma fração de segundo, e penso em te procurar. Depois lembro. E preciso continuar o que estava fazendo.

 

Tenho continuado, mãe. Resolvo problemas, converso, trabalho, faço planos. Quem me vê fazendo tudo isso talvez não perceba o esforço que alguns dias exigem. Às vezes, nem eu tenho paciência com a minha própria dor. Cobro de mim uma disposição que não tenho, respondo de forma seca, me afasto. Depois fico em silêncio, tentando entender o que aconteceu comigo.

 

Eu me tornei mais dura. Descrente de muita coisa, fria em situações nas quais antes eu me envolveria inteira. Fiquei distante de tanta gente... Algumas pessoas talvez pensem que deixei de me importar. Eu mesma me pergunto isso. Há dias em que não quero explicar nada, receber conselho, responder mensagem ou fazer o esforço de parecer bem para deixar alguém confortável.

 

Também tenho menos tolerância para presença pela metade. Para quem pergunta como estou e não tem tempo de ouvir. Para certas cobranças, certas conversas que antes eu sustentava por educação. A tua ausência mexeu até com a forma como eu permito que as pessoas se aproximem. E eu não vou fingir que gosto de tudo em que me transformei. Sinto falta da minha leveza. Sinto falta de conseguir confiar sem ficar esperando a próxima decepção.

 

Neste Círio, a fé também vem atravessada. Olho para Nossa Senhora e quero pedir alguma coisa, mas a saudade ocupa tanto espaço que me faltam palavras. Tem tristeza, tem revolta, tem uma vontade quase infantil de pedir pela minha mãe, mesmo sabendo que tu não vais voltar. Não consigo tornar isso bonito. Eu queria que tu estivesses aqui.

 

Ainda haverá outras primeiras vezes. Já penso no primeiro Natal sem ti e tenho vontade de não chegar lá tão depressa. As datas continuam vindo, e eu preciso aprender a estar nelas com essa falta. Ninguém pode fazer essa parte por mim.

 

Por enquanto, mãe, é assim que eu estou. Mais calada, mais difícil de alcançar, tentando dar conta da vida enquanto sinto a tua falta. Neste primeiro Círio sem ti, eu nem sei direito o que pedir a Nossa Senhora. Só queria poder te chamar e ouvir tua resposta mais uma vez.


Publicado por Monet Carmo em 10/10/2026 às 13h37
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