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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Meu Diário
11/08/2026 22h09
A casa que eu estou aprendendo a enxergar...

 

Tem uma simplicidade nessa foto que talvez só eu consiga entender por inteiro. Não tem cenário pensado, roupa escolhida para combinar, luz montada nem qualquer intenção de parecer alguma coisa. Tem uma casa ao fundo. Tem meu rosto. Tem um sorriso. E tem uma mulher que está começando a enxergar coisas que antes estavam ali, mas que ela não conseguia ver do mesmo jeito.

 

Tenho redescoberto a casa.

 

E isso é estranho, porque a gente pensa que conhece uma casa onde já viveu. Conhece a cozinha, o lugar das coisas, os barulhos, os defeitos, a luz que entra em determinado horário. Só que estou descobrindo que conhecer o endereço não significa conhecer a vida que aconteceu dentro dele.

 

Viver um pouco da pele da minha mãe tem mexido muito comigo.

 

Não digo isso no sentido de ocupar o lugar dela, porque lugar de ninguém pode ser ocupado. Digo no sentido de começar a olhar algumas coisas pelo ponto de onde ela olhava. Algumas escolhas que eu julgava. Algumas preocupações que eu achava exageradas. Alguns silêncios que eu interpretava de outro jeito. Até determinadas maneiras de cuidar da casa, das pessoas e da própria vida começaram a ganhar outro significado.

 

É impressionante como a gente pode passar anos olhando uma pessoa e só muito depois começar a enxergá-la.

 

Talvez por isso meu sorriso esteja diferente.

 

Eu ainda sorrio largo. Ainda gosto de rir alto, de falar besteira, de me arrumar, de sair, de desejar, de conhecer gente, de me meter em conversa que ninguém me chamou e de pensar sobre coisa que provavelmente eu poderia simplesmente deixar quieta.

 

Mas tem alguma coisa ficando mais verdadeira nesse sorriso.

 

Não porque eu tenha finalmente “me encontrado”. Tenho certa preguiça dessas frases prontas. Eu continuo me perdendo em um monte de coisa. Continuo errando leitura, exagerando sentimento, tomando decisão que depois reviso, acreditando em gente que talvez não merecesse tanto crédito. A diferença é que estou começando a não precisar esconder essas contradições para parecer uma mulher resolvida.

 

E junto com isso veio uma coisa menos bonita.

 

A consciência começou a doer.

 

Quanto mais estudo, observo, trabalho, converso e confronto aquilo que penso, mais percebo que pensamento crítico não acompanha necessariamente cargo, dinheiro, sobrenome, diploma ou a segurança com que alguém fala.

 

Isso me desconcertou muito.

 

Passei boa parte da vida supondo que algumas pessoas estavam intelectualmente à minha frente simplesmente porque ocupavam lugares que eu ainda não ocupava. Eu atribuía profundidade onde, muitas vezes, existia apenas segurança. Confundia autoridade com capacidade de pensar. E diminuía minhas próprias perguntas diante de pessoas que tinham respostas muito rápidas.

 

Hoje isso acontece menos.

 

E não é confortável perceber.

 

Porque existe uma solidão particular em enxergar uma contradição que todo mundo ao redor decidiu normalizar. Em fazer uma pergunta que incomoda quando seria muito mais fácil concordar. Em perceber que algumas pessoas que se consideram melhores do que você apenas tiveram mais oportunidades, mais validação ou aprenderam muito bem a parecer certas.

 

Não significa que eu seja mais inteligente que todo mundo. Longe disso. Tenho consciência suficiente para saber o tamanho do que não sei.

 

Mas também não aceito mais me colocar intelectualmente abaixo de alguém apenas porque aquela pessoa decidiu ocupar o lugar de cima.

 

Talvez essa seja uma das maiores mudanças em mim.

 

E, curiosamente, foi dentro de casa que comecei a perceber isso com mais clareza.

 

Entre coisas comuns. Uma cozinha. Uma cadeira. Um objeto que minha mãe colocava sempre no mesmo lugar. Uma lembrança aparecendo sem ser chamada. Uma decisão cotidiana que, de repente, me faz pensar: “agora eu entendo”.

 

Não concordo com tudo.

 

Mas entendo algumas coisas que antes eu julgava.

 

E entender a minha mãe depois de começar a experimentar pequenos pedaços do mundo pelo lugar de onde ela enxergava também está me obrigando a rever a mim mesma.

 

Talvez seja isso que existe nessa fotografia.

 

Não uma grande transformação.

 

Só eu, dentro de casa, sorrindo.

 

Mas já não exatamente do mesmo lugar de onde eu sorria antes.


Publicado por Monet Carmo em 11/08/2026 às 22h09
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