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... Expressividade ...

"Decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender! - Clarice Lispector

Meu Diário
03/08/2026 00h02
Gente qua passa

Depois dos 45, eu já não consigo fingir que não percebo quando alguém chega apenas para passar.

 

Percebo no jeito de conversar. Na curiosidade que não aprofunda. No interesse que se acende rápido demais e some quando a conversa exige presença, constância ou alguma responsabilidade afetiva. Percebo quando a pessoa quer me experimentar, mas não quer me conhecer.

 

E ainda assim, vez ou outra, eu me encanto.

 

Não sou essa mulher endurecida que alguns imaginam. Eu ainda admiro, ainda sinto desejo, ainda reconheço uma energia diferente quando ela aparece. Às vezes encontro alguém e penso que há ali alguma coisa parecida comigo. Um jeito de enxergar a vida, uma inquietação, um silêncio que parece dizer mais do que as palavras.

 

Então eu me permito acreditar um pouco.

 

Não muito. Só o suficiente para me colocar em risco.

 

O problema é que quase sempre essas pessoas passam. Não chegam para ficar. Chegam para sentir alguma coisa, provar alguma coisa, confirmar alguma coisa sobre elas mesmas. Depois seguem, como se eu fosse uma parada interessante no caminho e não uma mulher inteira, com história, profissão, projetos, afetos, fracassos, coragem e tudo o que precisei construir para chegar até aqui.

 

Às vezes me pergunto se essas pessoas têm curiosidade sobre quem eu sou de verdade.

 

Não sobre a mulher que aparece numa fotografia, conversa bem, provoca, ri e desperta desejo. Falo da mulher que trabalhou, viajou, cuidou, escreveu, ajudou, perdeu, recomeçou. Da mulher que já contribuiu com a vida de muita gente, mesmo quando quase ninguém percebeu. Da mulher que tem pensamento, experiência, ambição, medo e uma vontade enorme de ainda construir algo que permaneça depois dela.

 

Poucos perguntam.

 

Talvez porque conhecer alguém de verdade dê trabalho. Exige tempo. Exige escuta. Exige aceitar que o outro não existe apenas para nos distrair, nos validar ou preencher uma solidão de domingo.

 

Eu continuo querendo acreditar em relacionamentos, embora uma parte de mim já tenha aprendido a desconfiar deles.

 

Eu me apaixono e, ao mesmo tempo, observo a saída.

 

Eu admiro e já me pergunto quanto tempo aquilo vai durar.

 

Eu reconheço o vínculo, mas não ignoro a ausência.

 

É uma forma estranha de sentir. Uma parte minha ainda se abre. A outra já recolhe os objetos frágeis da sala.

 

Não porque eu tenha perdido a capacidade de amar. Talvez seja justamente o contrário. Eu sei o peso que o amor tem. Sei o que ele pode construir e também o estrago que faz quando alguém o trata como passatempo.

 

Depois dos 45, eu não quero ser entretenimento emocional de ninguém.

 

Não quero ser a mulher interessante que alguém procura quando está entediado, carente ou curioso. Não quero relações sustentadas apenas por atração, mensagens espaçadas, emojis e promessas que nunca chegam ao mundo real.

 

Quero alguém que tenha vontade de saber quem eu sou quando não estou bonita, forte, produtiva ou disponível. Alguém que pergunte pelo meu trabalho, pelos meus livros, pelo que eu penso, pelo que me cansa, pelo que ainda me move.

 

Não preciso que alguém me salve. Nunca precisei.

 

Mas seria bonito encontrar quem não estivesse apenas de passagem.

 

Alguém que não viesse para experimentar a minha intensidade e depois fugir dela. Alguém que entendesse que uma mulher madura não traz apenas desejo. Traz história. Traz cicatriz. Traz profundidade. Traz uma vida inteira que não cabe numa conversa superficial.

 

Eu ainda acredito.

 

Só não acredito mais em qualquer coisa.

 

Talvez esse seja o aprendizado mais honesto dessa fase: não deixar de sentir, mas parar de chamar de vínculo aquilo que só aparece quando é conveniente.

 

Há gente que chega e fica.

 

Há gente que chega e ensina.

 

E há gente que apenas passa.

 

O difícil não é aceitar que algumas pessoas vão embora.

 

É aceitar que, muitas vezes, elas nunca chegaram de verdade.


Publicado por Monet Carmo em 03/08/2026 às 00h02
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